


Digitalizao: Nathalia Enes de Campos



















A luz da Grcia

Ttulo original: Light of the Gods
Copyright? Barbara Cartland 1984

Traduo: Erclia Magalhes Costa

Copyright para lngua portuguesa: 1985
Abril A.A. Cultural  So Paulo














Captulo I
1860

        Sacha estava arrumando as flores na sala de estar quando ouviu o barulho de uma carruagem que parava a frente de sua casa.
        Como Nanny, que cuidava dela e do pai, estava fora, Sacha largou as flores que estava segurando, alisou o vestido com as mos e olhou-se rapidamente no espelho 
que havia sobre a cornija da lareira, para ver se seu cabelo estava em ordem.
        Ela estivera ocupada a manh toda com tarefas da casa, e no se preocupara com sua aparncia. Provavelmente a visita deveria ser para seu pai; o reverendo. 
De qualquer forma, ela esperava que no fosse ningum de cerimnia. Mas havia pouca gente na parquia que podia andar de carruagem.
        Os fazendeiros possuam grandes carroas, e o mdico andava sempre em seu trole de capota de couro, que o protegia do sol do vero, da chuva e dos rigores 
do inverno.
        Algum bateu com a aldrava na porta, e Sacha correu para atender. Foi com grande admirao que viu surgir  sua frente, como se fosse uma viso, uma jovem 
maravilhosa, toda vestida de rosa-plido.
        ? Deirdre! ? exclamou.
        ? Bom dia, Sacha! ? respondeu sua prima, lady Deirdre Lang. ? Vejo que est surpresa em ver-me!
        ? Muito surpresa! Pensei que estivesse em Londres.
        ? Estava. Voltei para casa anteontem  noite.
        Deirdre entrou na sala de estar, olhou ao redor com ar de desdm e disse:
        ? Feche a porta. Quero conversar com voc.
        Sacha olhou para ela com olhar indagativo.
        Deirdre era sua prima em primeiro grau, e ambas eram quase da mesma idade, mas, depois de crescidas, haviam perdido a intimidade que tinham na infncia. 
E agora, sempre que a prima vinha v-la, embora suas visitas fossem raras, Sacha percebia que Deirdre a considerava a prima pobre. Olhava-a com altivez, e tanto 
ela como seus pais desprezavam o pai de Sacha.
        Quando a me de Sacha era viva, tudo era bem diferente, mas ela morrera havia trs anos. Desde ento, a moa percebera que, por ser filha do pobre pastor 
de Little Langsworth, passara  categoria das pessoas sem importncia, apesar de ser sobrinha do marqus de Langsworth.
        Quando lady Margaret Lang, a nica filha do segundo marqus, insistira em se casar com o reverendo Mervyn Waverley, contra a vontade dos pais, todos os parentes 
haviam, metaforicamente, lavado as mos, afastando-se dela.
        ? Como  que uma moa linda e de posio, como Margaret, pode renunciar a tudo, para se casar com um simples pastor? ? perguntavam os parentes.
        No compreendiam que ela estava loucamente apaixonada pelo mais belo, mais encantador e mais charmoso homem que j encontrara em toda sua vida.
        A incompreenso dos parentes era justificvel, pois lady Margaret tivera inmeros pretendentes. Naquela ocasio seu pai estava pretendendo cas-la com um 
par do reino ou com um baronete cuja fortuna pessoal e propriedades eram superiores s suas.
        Porm, lady Margaret havia dito aos pais que, se eles no consentissem em seu casamento com o homem que amava, ela fugiria de casa, o que seria um escndalo.
        Aps meses de discusses, rogos e lgrimas, o marqus capitulara.
        Eles se casaram numa cerimnia simples, sem festas e com poucos convidados. Foi com grande alegria que o jovem casal se viu fora dos grandes portes que 
cercavam o parque no qual se achava a Manso de Langsworth, indo morar na pequena casa paroquial, que ficava nas terras do marqus.
        Como o antigo pastor havia falecido, o marqus arranjou para que o genro tomasse conta da pequena parquia. Era o mnimo que podia fazer pela filha. Ali 
eles teriam uma casa para morar, um meio de subsistncia. No era grande generosidade de sua parte, dada sua grande fortuna, mas os dois jovens estavam to felizes, 
que no se preocupavam com outra coisa que no fosse o amor que nutriam um pelo outro.
        Foi s bem mais tarde que lady Margaret compreendeu que estava privando sua filha, Sacha, das muitas regalias que, por direito, deveria ter. Assim, quando 
seu irmo se tornara terceiro marqus de Langsworth, a filha dele, Deirdre, e a sobrinha, Sacha, tiveram as mesma educao, com as melhores preceptoras e governantas. 
Sacha pde, portanto, ter todo o conforto e a formao de uma aristocrata.
        Na casa do tio ela partilhava tudo o que havia na antiga manso em estilo georgiano. Alm de todo o luxo, podia brincar no parque e nos belos jardins. Tinha 
 sua disposio a imensa biblioteca, e podia cavalgar a vontade. Diariamente, montava os mais belos animais e passeava com a prima pela propriedade.
        A tia de Sacha, a marquesa, considerava lady Margaret uma tola por ter abandonado todo aquele luxo para se casar com o reverendo, e no perdia oportunidade 
de demonstr-lo.
        Muitas vezes o reverendo teve vontade de pedir uma transferncia, mas a esposa o dissuadia de faz-lo, para no privar a filha de todas as vantagens que 
tinha, morando to perto dos tios. Lady Margaret sabia que ela e o marido jamais poderiam dar  filha aquele tipo de vida, o que, alis, era um direito seu.
         Das duas garotas, a que mais se aplicava e aproveitava as lies era Sacha. As aulas de msica e de dana, por exemplo, eram dadas no salo de baile do 
castelo. O marqus fazia questo de que a filha se desembaraasse e adquirisse a graa que, por natureza, no tinha. Queria que, mesmo que a poder de muito treino, 
Deirdre soubesse danar muito bem, para mais tarde brilhar nos mais elegantes sales de Londres. Sacha, ao contrrio, era a graa em pessoa, e aproveitava as lies 
ao mximo. Tambm freqentava muita a biblioteca, e estava sempre lendo um bom livro.
        Quando estava com quinze anos, disse ao pai:
        ? Papai, o sr. Cornwall, que administra a biblioteca, disse que fui a nica pessoa que j leu os livros da estante de cultura e histria da Grcia. H inmeros 
livros que o senhor no tem em casa e sei que gostaria de ler.
        O reverendo ficou muito interessado, e comentou:
        ? Talvez eles sejam preciosos para as tradues que estou fazendo.
        ? Vou escrever os ttulos dos livros para o senhor ver ? disse Sacha ? No, tenho uma idia melhor: vou trazer uns para casa, para que o senhor possa l-los.
        O reverendo ficou pensativo e, depois de uma pausa, respondeu:
        ? No acho que voc deva trazer livros da biblioteca sem o consentimento de seu tio. Na verdade, no estou, no momento, nada inclinado a lhe pedir favores.
        Sacha sabia que o pai e o tio estavam tendo desentendimentos por causa de algumas casas que havia na propriedade, em que moravam velhos pensionistas j aposentados, 
ex-empregados do marqus. Essas casas estavam em pssimas condies, e o marqus na tinha o menor desejo de consert-las, apesar de toda a sua riqueza.
        ? Mas, papai, o sr. Cornwall est to entusiasmado por ver que, como ele, eu aprecio os livros, que no hesitar em emprestar-me alguns. Tenho certeza de 
que poderei escolher os que quiser.
        Sem dar ateno aos protestos do reverendo, Sacha trouxe para casa os livros que, segundo seu parecer, interessariam ao pai, ajudando-o em seus estudos e 
seu trabalho.
        Nos ltimos cinco anos, o reverendo se dedicara a escrever livros e a fazer tradues do grego. Desse modo, obteria recursos extras para poder dar  famlia 
um pouco de conforto. Seus trabalhos despertavam o interesse de estudiosos e homens eruditos, e eram vendidos tambm s bibliotecas das universidades.
        A renda que auferia dessas vendas no era grande, mas ajudava bem. E tanto lady Margaret como Sacha tinham o maior orgulho em saber que o reverendo era considerado 
a maior autoridade no que se referia  Grcia antiga.
        Na casa do marqus, entretanto, o que mais motivava o interesse de todos era a vida social, os bailes e as festas. Deirdre j havia debutado, e brilhava 
nos sales. Alm de linda, usava os vestidos mais maravilhosos e mais caros, feitos pelas melhores casas de Londres.
        A manso dos Langsworth em Londres, em Berlesley Square, vibrava com festas deslumbrantes, onde Deirdre era cortejada e aclamada como a beldade da temporada.
        Para Sacha, a ida dos tios e da prima a Londres, para a temporada, significava a interrupo das aulas de msicas e de dana. Tambm no podia mais passear 
pelos campos nos cavalos magnficos. Mas o que mais lhe fazia falta eram suas idas  biblioteca, agora cada vez mais raras.
        A marquesa agora fazia questo de manter Sacha distante de Deirdre,  deixada bem claro que seu lugar era na vila, ao passo que Deirdre deveria freqentar 
os melhores sales da nobreza.
        
        Com o tempo, Sacha acostunou-se  monotonia da vida longe da Manso Langsworth. Felizmente, havia muito o que fazer em sua casa, e ela tambm ajudava o pai 
nas tradues.
        Com a morte de lady Margaret, a vida de Sacha e do pai tornou-se mais difcil, pois o marqus cortou toda e qualquer ajuda ao cunhado e  sobrinha. Nanny 
estava envelhecendo, e tudo o que ela no podia fazer ficava sob responsabilidade de Sacha.
        Entretanto, ela estava sempre alegre, e passava horas conversando com o pai sobre assuntos histricos, que terminavam sempre recaindo sobre a Grcia.
        O conhecimento do reverendo sobre a Grcia antiga, seus deuses e deusas era to grande, que Sacha no se cansava de ouvir o pai discorrer sobre eles.        
        Embora o trabalho de traduo tambm lhe intressasse bastante, ela sentia-se muito isolada. Tinha ento dezoito anos, e era muito bonita e meiga.
        Nanny no se conformava em ver a pobre moa sempre presa dentro de casa. Certo dia comentou:
        ? Perdoe-me, reverendo, mas  lamentvel que Sua Senhoria, o marqus, ignore a sobrinha e no faa nada mais por ela. Afinal, a senhorita Sacha e lady Deirdre 
eram to ntimas quando crianas!
        O reverendo olhava-a de modo distante e meio distrado:
        ? O que voc quer dizer com fazer alguma coisa por ela, Nanny?
        ? Quero dizer, senhor, que a srta. Sacha deveria ser convidada pelo menos para algum baile. Assim, poderia conhecer alguns cavalheiros e ser admirada por 
eles. Afinal, no h diferena entre ela e Deirdre. Elas parecem gmeas!
        ? De fato, so bem parecidas ? o reverendo concordou.
        ? A nica diferena ? continuou Nanny ? so essas roupas simples que ela usa. Se tivesse um vestido decente para usar, seria to linda quanto a prima!
        O reverendo suspirou.
        ? Voc sabe que no podemos gastar dinheiro em roupas caras, Nanny.
        ? Sim, sei. Mas mesmo que o senhor pudesse comprar para sua filha um lindo vestido na Bond Street, onde ela iria us-lo? Ela s vai  igreja aos domingos, 
onde encontra os caipiras e ignorantes da vila.
        Como o reverendo nada respondesse, Nanny continuou:
        ?  uma judiao ver a nossa linda menina esfalfar-se nos trabalhos caseiros, como se fosse uma escrava, sem nunca reclamar! Ela jamais pede para ir a lugar 
algum. Poderia muito bem, pelo menos de vez em quando, freqentar as festas na casa do tio, o marqus. Tenho certeza de que, se lady Margaret fosse viva, tudo seria 
diferente!
        Acabando de dizer o que sentia, Nanny afastou-se da saleta de estudos, fechando a porta atrs de si.
        O reverendo sabia que tudo o que a boa Nanny dissera era verdade, mas no havia nada que pudesse fazer. Ele no iria pedir ao cunhado que convidasse a filha 
para as festas que dava regularmente na manso. Os habitantes da vila e das terras do marqus chamavam a manso de Casa Grande. Quanto  possibilidade de Deirdre 
convidar a prima para participar de pelo menos alguns dos bailes da temporada, o reverendo sabia que no havia a menor chance de isso acontecer.
        Ele olhou para a fotografia de sua esposa, que estava sobre a escrivaninha, e disse:
        ? Que posso fazer, querida? Esta  uma das razes por que sinto tanta a sua falta.
        Mesmo sabendo que encontraria a esposa na outra vida, ele a queria junto de si naquele momento.
        Quando Nanny repetiu a Sacha o que dissera ao reverendo, a moa no pde evitar o riso, dizendo:
        ? Poderia imaginar Deirdre convidando-me para festas? Voc sabe to bem quanto eu que ela se envergonha de mim! Afinal, sou to pouco importante!
        ? Ela tem, mais provavelmente cimes da senhorita.
        ? Querida Nanny, voc sabe muito bem que Deirdre no tem de que sentir cimes.
        Porm, Sacha sabia que no estava dizendo realmente a verdade. Deirdre sempre fora ciumenta. Ela detestava a filha do juiz supremo do condado, apenas porque 
a moa estava sempre acompanhada de um rapaz muito bonito, que a adorava, ia sempre com elas s caadas e s danava com elas nos bailes.
        Sacha lembrava-se tambm da ltima vez em que fora a um baile com a prima. Nesse dia, estava muito bonita e bem vestida, e teve muito sucesso com os cavalheiros. 
Desde essa vez, Deirdre jamais a levara a festa alguma. Durante o caminho de volta  manso, dissera  prima:
        ? Acho que voc se exibiu demais, querida. Com certeza deve ter abertamente persuadido os cavalheiros a lhe conceer muitas danas no cotillion.
        ? No, Deirdre ? disse sacha, tentando alegrar a prima. ? Voc  a mais querida de todas as moas do condado, e tambm a mais bonita! Todos os cavalheiros 
danaria s com voc, se pudessem.
        ? . Considerando-se que eu era a mais bem-vestida, devia ter mesmo todos eles a meus ps.
        A marquesa tambm elogiou a filha:
        ?  verdade, querida. Voc era a mais linda do baile! E ter outro vestido ainda mais encantador, feito por madame Ivonne, apesar de os vestidos feitos por 
ela serem os mais caros de Londres.
        Como estava determinada a fazer pouco da sobrinha, a marquesa voltou-se para ela, dizendo:
        ? Voc deve pedir  sua me que lhe mande fazer um vestido novo, tambm. Esse que est usando j est batido. Alm disso, est muito apertado e, na minha 
opinio, curto demais.
        ? Direi a mame, tia Alice ? disse Sacha meigamente.
        Ela sabia que seu vestido era muito bonito, apesar de haver sido costurado por ela e por Nanny. Sabia tambm que a tia estava sendo desagradvel apenas porque 
a filha tinha cimes dela.
        Agora, Sacha se perguntava qual seria a razo da visita da prima. J fazia um ano que no a via, e s sabia dela pelo que ouvia do pessoal da vila. Os criados 
da Casa Grande sempre faziam comentrios sobre o sucesso que Deirdre fazia entre a nobreza. No que Sacha ficasse fazendo perguntas, mas era difcil ignorar ou deixar 
de ouvir as notcias que corriam de boca em boca. Sacha sabia que inmeros nobres haviam proposto casamento  prima. Sabia tambm que a rainha fora gentil com ela 
quando fora apresentada no Palcio de Buckingham. Havia ainda rumores de que Deirdre tinha um pretendente muito importante e rico, com quem em breve se casaria.
        Sacha achava aquilo tudo fascinante, mas desejava, sinceramente, ver a prima e saber de sua prpria boca tudo o que estava vivendo. No tinha a mnima inveja 
de Deirdre, e imaginava como devia ser maravilhosa e excitante a Viana grande capital, as festas incrveis nos palcios, entre toda aquela gente encantadora e fina.
        Agora, quando menos esperava, tinha a grande surpresa de ver a prima, em pessoa, ali em sua casa. Geralmente Deirdre a chamava  Casa Grande quando queria 
v-la. Sem se conter, Sacha disse, impulsivamente:
        ? Voc est maravilhosa, Deirdre! Como lhe fica bem esse tom de rosa!
        ?  o que todos dizem ? Deirdre respondeu, de uma maneira complacente. ? Mas acho que o azul me assenta melhor.
        Ela caminhou at a lareira e olhou-se no espelho. Depois disse:
        ? Fui ao baile no Palcio de Buckingham com um vestido verde-plido, e soube depois que o prncipe-consorte disse que eu era a mais linda e mais bem vestida 
do salo.
        ? Oh, Deirdre, que maravilha! Voc danou muito?
        ? Claro! No parei um minuto! E muitos cavalheiros ficaram aborrecidos quando viram que meu programa estava completo e eles no poderiam danar ao menos 
uma vez comigo!
        ? Tenho certeza de que voc  sempre a mais linda em todas as festas a que comparece!
        ?  Claro que sou! ? Deirdre afastou-se do espelho. ? Sacha, quero lhe contar um segredo. Mas voc vai prometer-me que no dir uma palavra a ningum.
        ? Voc sabe que pode confiar em mim, Deirdre.
        Sacha estava excitada de curiosidade. Lembrou-se de que, quando crianas, ela e a prima sempre haviam sido confidentes.
        ? Por favor, sente-se querida ? disse, indicando o sof. ? Tenho tido tantas saudades suas! Mais do que posso expressar com palavras.
        Por uns instantes, Deirdre foi simptica e pareceu embaraada. Ento disse:
        ? Tenho estado to ocupada, Sacha! Ainda ontem disse a mame que no tenho tempo nem para mim mesma.
        ? Compreendo, querida. Mas qual  o segredo que tem para dizer-me?
        Deirdre baixou a voz:
        ? O segredo  que eu vou ficar noiva do duque de Silchester!
        Sacha olhou para ela de olhos arregalados.
        ? Como isso  maravilhoso, Deirdre! Alegro-me por voc! E o voc o ama?
        ? Estou encantada em tornar-me duquesa de Silchester! Pense nisso, Sacha! Nas recepes, terei uma posio superior  da mame.
        ? Conte-me sobre o duque! ? pediu Sacha.
        ? Ele  um homem muito bonito, e um dos mais importantes duques da Inglaterra. Provavelmente voc j ouviu falar nele. Tem os melhores cavalos de corrida, 
e mora numa manso maravilhosa, em Buckinghamshire.
        ? Voc merece tudo isso! ? Sacha disse, radiante. ? Quando ser o casamento?
        Depois de uma pequena pausa, Deirdre respondeu:
        ? Papai est cuidando de tudo. Primeiro vamos dar uma recepo para anunciar nosso noivado. Vai ser uma festa, todos os parentes e pessoas importantes sero 
convidados.
        ? Quando vai ser, Deirdre?
        ? Dentro de algumas semanas. Papai no quer que ningum saiba que j estamos noivos, para no estragar a surpresa.
        ? Fico muito contente por voc ter-me contado. Rezarei para que sejam muito, muito felizes.
        Deirdre ficou calada por uns momentos, e Sacha perguntou:
        ? H alguma coisa errada?
        ? No. S precisava de... seu auxlio...
        ? Meu auxlio?
        ? Sim. E voc tem que me ajudar!
        ? Claro que farei o que puder, voc sabe disso!
        ? Sabia que diria isso. Agora oua com ateno, pois  muito importante!
        Sacha sentou-se ao lado da prima, e esta disse:
        ? Papai soube, anteontem, que o duque sofreu um acidente.
        ? Um acidente? Ele est ferido?
        Deirdre fez que sim coma  cabea.
        ? Ele est na Esccia com a av. Foi apanhado em uma armadilha para animais predadores.
        ? Oh, no! Que horror!
        Sacha sabia que essas armadilhas eram perigosas, e eram tambm uma crueldade com os pobres animais. Seu pai lhe explicara que ainda eram usadas no norte 
da Inglaterra  na Esccia, mas no mais no sul. Os caadores e fazendeiros as usavam para apanhar raposas e gatos selvagens, que costumavam atacar as aves nas fazendas. 
Colocavam geralmente um coelho ou um outro pequeno animal vivo para atrair o predador que quisessem apanhar. Quando uma raposa ou um gato selvagem ouvia os gritos 
do animalzinho preso e se aproximava da armadilha, esta explodia, causando ferimentos graves ou a morte.
        ? Voc deve ter ficado muito aborrecida com o que aconteceu ao duque, no? ? disse Sacha, penalizada.
        ? Sinto muito por ele, mas, ao mesmo tempo, no pretendo ir  Esccia.
        ? Ele lhe pediu que fosse at l?
        ? A av dele escreveu a papai, dizendo que o duque estava muito aborrecido por ter que ficar preso a uma cama, pois teve que se submeter a uma cirurgia para 
remover os estilhaos do corpo, resultantes da exploso. Ela acha que o neto ficaria muito feliz ao meu lado, e convidou-me para passar uns dias em seu castelo.
        ? Sei que  uma viagem longa, mas estou certa de que apreciar bastante poder estar ao lado de seu noivo.
        Deirdre ficou um instante em silncio, depois disse:
        ?  esse o ponto, Sacha. Eu no quero ir  Esccia. Alm disso, no posso faz-lo agora.
        ? Por qu?
        ? Porque lorde Gerard j havia me convidado para uma festa em minha homenagem que vai ar em sua casa, a uns cinqenta quilmetros daqui. Como j aceitei 
o convite, no pretendo desapont-lo.
        ? Mas, Deirdre, se voc vai mesmo se casar com o duque, no deseja ficar ao lado dele num momento to difcil, em que ele necessita tanto de voc?
        ?  que... lorde Gerard  um amigo muito... ntimo, e essa festa foi planejada h bastante tempo. Vai haver um baile, e s haver pessoas amigas. Alm disso, 
durante o dia haver coisas interessantssimas para fazer. Sabe, Sacha... eu pretendo ir... tenho que ir!
        Sacha percebeu o que Deirdre queria dizer.
        ? Estarei errada em pensar que lorde Gerard significa... algo muito especial para voc, querida?
        Por um momento Deirdre desejou negar, mas disse:
        ? Gosto muito dele, e quero ir  sua festa.
        Sacha, que observava atentamente a prima, exclamou:
        ? Deirdre, voc o ama! Por que no se casa com ele?
        ? Como posso faz-lo se o duque me pediu em casamento? Papai e mame esto exultantes com a idia de eu vir a ser duquesa! Pense na posio que terei na 
corte, no castelo do duque e em todas as suas propriedades! Oh, e as jias! Os diamantes Silchester so famosos e valiosssimos! H uma tiara que parece uma coroa!
        ? Mas voc ama lorde Gerard! 
        ? No adianta voc me dizer isso! ? Deirdre, irritada. ? Mesmo amando lorde Gerard, eu seria uma grande tola e deixaria meus pais furiosos, se recusasse 
o duque. Tenho a firme inteno de despos-lo, mas vou  festa de lorde Gerard, porque  a ltima vez que pretendo estar com ele, antes de me casar.
        Deirdre estava quase chorando ao dizer essas palavras, e Sacha carinhosamente segurou-lhe as mos, dizendo:
        ? Querida, voc acha realmente que poder ser feliz com o duque, apesar de todo o sucesso que esse casamento lhe proporcionar, amando outro homem? Ser que 
no ir se lamentar de ter desistido do amor de lorde Gerard?
        ? Lorde Gerard pouco pode oferecer-me. Essa  a verdade! Sua propriedade  pequena, e sei que ele tem muitas dvidas. E eu quero ser muito, muito rica. Quero 
ser duquesa!
        Sacha teve vontade de dizer que sua me se casara com um homem pobre e nunca o lamentara. Sabia porm que Deirdre no acreditaria que se pudesse ser feliz 
sem dinheiro. Lembrava-se de que Deirdre em dia se referira a lady Margaret como uma tola pro haver trocado a opulenta manso de seus pais por aquela humilde casa 
paroquial, numa vilazinha insignificante, em meio quela gente atrasada e caipira. Sacha dissera a Deirdre que seus pais eram muitos felizes, mas a prima respondera 
que no acreditava que a tia no sentisse falta dos belos vestidos, muitos criados, carruagens, belos cavalos, festas, muitas festas e, claro, de estar no meio de 
gente muito importante e de seu nvel.
        ?  verdade que tenho meu dinheiro ? Deirdre continuou ?, mas no quero gast-lo. Quero um marido que gaste seu dinheiro comigo, ao invs de empregar o meu 
dinheiro para pagar dvidas de quem quer que seja.
        ? Quando se casar, sue dinheiro ser de seu marido. Essa  a lei.
        ? Mas se eu me casar com o duque, vou ter muito mais, juntando nossas fortunas. E voc sabe que eu preciso de muito para manter o padro de vida que levo. 
Como duquesa, vou querer mais ainda.
        ? Oh, Deirdre, seja sensata! Quero que seja feliz. Sempre temi que voc talvez pudesse, um dia, ser forada a se casar sem amor. Siga seu corao, e ponha 
em primeiro lugar o amor, no o dinheiro.        
        ? Deixe de ser tola, Sacha! Vou casar-me com o duque e pode crer que terei uma vida maravilhosa e jamais me arrependerei de hav-lo escolhido para marido. 
Porm, no desistirei de ir  festa de lorde Gerard, e  a que preciso de sua ajuda.        
        ? Como? ? Sacha no podia entender aonde a prima queria chegar.
        ? Voc vai a Esccia em meu lugar! Far companhia ao duque, enquanto que ele se restabelece.
        ? Isso  ridculo! O duque quer a sua companhia, no a minha.
        ? Mas ele vai pensar que sou eu quem estar ao lado dele.
        ? Como? No comprendo...
        ? Deixe de ser boba, Sacha!  muito simples. Voc vai  Esccia em meu lugar, e eu vou  casa de Harry Gerard. Voc ficar no castelo da av do duque, e 
far tudo para que ele se sinta bem.
        ? Acho que  voc quem est ficando doida. Est pensando que o duque acreditar que eu seja voc?
        ? Ah, esqueci-me de dizer-lhe que o duque est cego, no momento.
        ? Cego?!
        ? Sim. Na exploso da armadilha, ele foi ferido nos olhos tambm. A av dele disse que os mdicos esperam que seja uma cegueira temporria, pois a cirurgia 
parace ter sido bem sucedida. Porm, s tero certeza de que ele ficar totalmente curado depois de removerem as bandagens.
        ? Que horror! Mal posso acreditar!
        ?  verdade. Por isso  que tenho certeza de que o duque vai acreditar que voc seja Deirdre. Enquanto voc o distrai, eu estarei me divertindo de maneira 
bem diferente.        
        ? E voc acredita mesmo que possa engan-lo?
        ? Por que no?
        ? Haver outras pessoas no castelo que no esto cegas... A av... Os empregados...
        ? Ningum me conhece. Alm disso, voc sabe que somos muito parecidas. H pessoas que dizem que parecemos irms gmeas.
        ? Que  isso, Deidre! Imagine! Voc  muito mais bonita que eu.
        ? Mas se voc se vestir como eu e se arrumar seu cabelo de acordo com a moda, tenho certeza de que poder passar por mim.
        ? No acredito...
        ? Escute ? disse Deirdre, quase perdendo a pacincia ? Pare de fazer observaes tolas. Papai e mame estaro em Windsor, com a rainha, em uma exposio 
agrcola ou coisa parecida. Partiro amanh bem cedo. Depois que eles de forem, ns iremos para a estao, acompanhadas do secretrio de papai, o sr. Webster. Tomaremos 
o mesmo trem, mas eu descerei na primeira parada, onde Harry estar esperando por mim.
        Sacha ouvia tudo atentamente, mas na maior das aflies. Jamais gostara de mentiras, e aquilo tudo parecia o maior dos absurdos. Ento, perguntou:
        ? E se algum reconhecer voc?
        ? Como podero? Eu estarei no trem que vai para Londres, no se esquea.
        ? Ah,  muito complicado! No sei se serei capaz...
        ? Vamos! Planejei tudo cuidadosamente. No esqueci um detalhe. A nica coisa que tem a fazer  seguir as instrues.
        ? Mas que farei quando chegar a Londres?
        ? O sr. Evans vai encontr-la.  um dos empregados de papai em Londres. Ele j me viu algumas vezes, mas s de longe, e jamais conversou comigo. Ele j ter 
reservado um compartimento todo para voc, no Expresso Escocs, e a acompanhar at o trem. Naturalmente, voc no viajar sozinha. Emily ir com voc. Ela no  
muito inteligente, mas  obediente e devotada, e far tudo o que lhe ordenarem. Lavarei Hanna comigo, pois preciso dela para cuidar de mim. Quero estar maravilhosa 
na festa de Harry!
        ? Mas voc acha que os criados mantero segredo?
        ? Hanna  muito fiel a mim, e far tudo o que eu pedir, e quanto a Emily, far tudo conforme Hanna mandar. Ela morre de medo de contrariar Hanna. Por falar 
em Hanna, ela est, neste momento, separando uma poro de vestidos meus para lhe trazer. So vestidos bons, mas eu quero d-los a voc, pois vou reformar todo o 
meu guarda-roupa para o enxoval.
        Deirdre deu um longo suspiro e depois continuou:
        ? Ah, Sacha, voc precisa ver que lindos modelos escolhi para levar em meu enxoval! Qualquer mulher que os vir ficar morrendo de inveja!
        Sacha criou coragem e disse:
        ?Deirdre... Ns no podemos levar esse plano avante... Sinto desapont-la, mas... voc jamais me perdoaria se eu falhasse. Ento  melhor nem...
        ? Que  isso, Sacha? Voc no vai falhar, nem meu plano! Ningum vai ao menos suspeitar que voc no seja... Deirdre.
        De repente, ela comeou a rir e disse:
        ? Voc se lembra daquela professora que freqentemente nos confundia?
        ? Mas  diferente, Deirdre...
        ? No me venha com mais, Sacha. Jamais pensei que depois de tantos anos sendo sua amiga, fosse negar-me um favor. Voc no v que estou quase lhe implorando, 
Sacha?
        Havia mesmo um forte apelo na voz de Deirdre, ao qual Sacha no podia permanecer insensvel.
        ? O duque est mesmo... cego? ? A voz de Sacha era muito meiga ao dizer isso./        ? No haveria razo para a av dele dizer isso se no fosse verdade. 
Sei que ela est muito contrariada e muito preocupada com o que aconteceu ao neto.
        ? Mas se descobrir que voc o enganou, o duque jamais a perdoar, e a av ficar ainda mais contrariada, Deirdre... o duque ama voc bastante, no?
        ? Claro que me ama! Ele me disse que sou a mais linda moa que j conheceu. Alm isso, j tem quase trinta anos, e quer um herdeiro o mais depressa possvel.
        ? Eu o imagino como um homem to austero!
        ? No  nada disso.  claro que Talbot ?  esse o nome dele ?  um homem consciente de sua importncia, e quer, naturalmente desposar uma mulher  sua altura. 
Ele no encontrar outra moa mais bonita para admirar, nem para usar com graa os diamantes Silchester! Mas paremos com essas conversar, e responda-me logo que 
vai aceitar ajudar-me a seguir meus planos. Temos muita coisa para fazer.
        ? Voc sabe que eu nunca viajei para muito longe... ? disse Sacha, revelando o medo que sentia.
        ? Sei disso. Mas a nica coisa que tem a fazer, depois que o Sr. Evans a puser no trem,  sentar-se e esperar que ele chegue a seu destino.
        Sacha suspirou. Depois deu um grito.
        ? E meu pai?
        ?  fcil resolver isso. J pensei no que diremos ao reverendo. Vou pedir-lhe que a deixe ir comigo at a Esccia. Tenho certeza que ele compreender que 
necessito de sua companhia para fazer uma viagem to longa, ainda mais sabendo que  para o bem-estar de meu futuro marido.
        ? ... acho que papai no se opor.
        ? Ento, est tudo combinado. E agora, quero que venha comigo at minha casa ver as roupas que separei para voc. Depois,  s se preparar para a viagem. 
Passarei para apanh-la amanh bem cedo.
        Sacha respirou fundo e disse:
        ? Mal posso acreditar! Custa-me pensar que isto esteja realmente acontecendo.
        ? Pois para mim tudo  bem real. Estou decidida a encontrar-me com Harry, o que ser bem mais agradvel do que ficar sentada diante de um homem que est 
no somente doente, mas... cego!        
        ? Voc certamente se compadece muito do duque, no?
        ?Sim. Mas a av dele no devia permitir esse tipo de armadilhas em sua propriedade, e o duque deveria ser mais cuidadoso e no cair numa delas!
        ? Espero que no seja isso o que voc deseja que eu diga a ela ? disse Sacha em tom brincalho.
        ? Claro que no! E sei que voc vai ser um anjo, dizendo-lhe somente coisas maravilhosas e ajudando-o a se restabelecer o mais depressa possvel. E deixe 
que ele fale tambm. Os homens gostam de mulheres tmidas e frgeis, que os faam sentir-se viris e protetores. Muitos homens consideram as mulheres umas tolas e 
gostam delas assim, para que no percebam como eles so presunosos e convencidos.
        Sacha lembrava-se do tempo em que estudava com a prima e achava que ela no era muito inteligente, pois no fazia as lies e jamais se interessara por leitura 
mais srias ou por coisas que exigissem raciocnio. Porm, agora via que Deirdre, apesar de no se interessar por conhecimentos acadmicos, sabia tirar proveito 
das coisas, sempre procurando o prprio benefcio. O plano que ela arquitetara s para passar uns dias com Harry era um exemplo de como se empenhava em conseguir 
o que queria.
        Deirdre interrompeu-lhe os pensamentos.
        ? Acho melhor nos apressarmos. No temos tempo a perder.
        Felizmente Nanny vinha chegando, e Sacha correu para seu quarto, para pr o chapu. Quando descia as escadas, apressada, Deirdre lhe disse:
        ? Avise  criada que voc almoa conosco. Quando eu vier traz-la de volta, conversarei com seu pai. No demore, pois a carruagem esta  nossa espera.
        Enquanto voltava da cozinha, depois de ter falado com Nanny, Sacha pensou em sua me, e achou que ala no gostaria nada daquela farsa. Mas no tivera escolha 
seno aceitar os planos da prima. Agora, secretamente, rezava para a me ajud-la: Por favor, mame, sei que no aprova... Mas por favor, faa com que ningum descubra 
que sou uma impostora....


Captulo II

        Quando Deirdre desceu na primeira estao, mal teve tempo de se despedir de Sacha. Esta observou, rapidamente, o elegante e belo cavalheiro que havia ido 
encontrar-se com a prima.
        O trem partiu novamente, e Sacha mal podia acreditar que estava a caminho daquilo que considerava uma louca aventura.
        Desde o momento em que Deirdre a forara a aceitar seu plano, Sacha sentia-se como se estivesse sonhando e fosse acordar a qualquer instante.
        Lembrava-se da excitao da vspera. Quando fora  casa dos tios e vira o enorme ba de fino couro, cheio de roupas maravilhosas que Hanna separara para 
ela, mal pde acreditar que iria usar artigos to finos, dignos de ser exibidos nos mais elegantes sales.
        ? Voc no pode dar-me tudo isso, Deirdre! ? ela exclamara.
        ? No vou us-los mais, e Hanna vive reclamando que no h mais espao nos guarda-roupas ? dissera Deirdre.
        ? Isso  bem verdade, milady ? dissera Hanna, olhando para as roupas simples que Sacha estava usando ? Estou certa de que a srta. Sacha far bom uso deles!
        ? Agora, Hanna, temos que decidir o que ela usar na viagem. J lhe disse que a primeira impresso  muito importante.
        Hanna apertou os lbios, e Sacha percebeu , pela expresso da criada, que ela no estava nada satisfeita com os planos da patroa. Ficou contente ao notar 
que Hanna era uma pessoa sensata, e pensava, como ela, que aquele plano absurdo poderia ter conseqncias desastrosas.
        Depois de muito discutirem, Deirdre e Hanna decidiram que Sacha vestiria um traje de viagem azul-jacinto. Uma capa da mesma cor do vestido, provida de um 
capuz, formava o conjunto.
        Depois de vestida, Sacha transformou-se numa linda aristocrata. Nem de longe parecia a simples moa de horas atrs. A armao da saia era to grande, que 
Sacha tinha medo de se atrapalhar ao andar com ela. Naquela poca, as armaes que sustentavam a crinolina, de acordo com a moda, deviam ser bem amplas. Havia at 
divertidas ilustraes em jornais e revistas sobre as saias-balo usadas pelas mulheres.
        Os complementos para o fino traje eram luvas, uma bolsa e um par de sapatos combinando, e ainda um lindo chapu com pluma de avestruz. Felizmente, tudo serviu, 
pois as duas primas tinham o mesmo manequim. Deirdre tinha apenas a cintura um pouco mais grossa, mas a costureira que morava na Casa Grande foi chamada imediatamente 
para fazer os ajustes necessrios.
        As roupas que Sacha no fosse levar na viagem seriam mandadas para sua casa. Com certeza Nanny e o reverendo iriam estranhar a sbita generosidade de Deirdre.
        Realmente, quando a carruagem da Casa Grande chegara com um enorme ba de couro e quatro caixas de chapu, Nanny, vendo tudo aquilo, exclamara:
        ? Que ser que lady Deirdre est pretendendo, tornando-se to prdiga assim repentinamente?
        Sacha sabia que aquele era um assunto perigoso, e disse:
        ? No sei por que voc pode pensar que Deirdre tenha segundas intenes. No esquea que ela sempre repartia suas coisas comigo quando ramos crianas.
        ? Mas isso foi h bastante tempo! Desde que lady Deirdre foi para Londres e passou a fazer sucesso nas festas no palcio, parece que no quis mais saber 
da prima... ? Nanny replicou.
        Sacha resolveu no responder, para no deixar Nanny ainda mais intrigada.
        Quanto ao pai, como Sacha e Deirdre esperavam, achou muito gentil e cristo da parte da sobrinha querer visitar o futuro marido em momento to difcil. Tambm 
achou que realmente no ficava bem uma mocinha ir visitar o noivo sozinha. Alm de tudo isso, o reverendo admirava o duque. J ouvira falar dele e lera muito a seu 
respeito. Foi uma surpresa para Sacha ouvir o pai referir-se a ele.
        ? Senti muito saber que o duque de Silchester sofreu esse acidente! Ele  um grande esportista, um homem de carter e muito generoso! ? disse o reverendo.
        ? nunca ouvi o senhor falar no duque, papai!
        O pastor sorriu:
        ? Estou mais interessado em ler sobre a Grcia antiga, mas no esquea que tambm leio jornais. Alm disso, os cavalos do duque tm feito sucesso. Um deles 
ganhou o Derby, no ano passado, e fiquei muito gratificado, pois a coleta do domingo aumentou consideravelmente...
        Sacha no pde deixar de sorrir.
        ? Mas no foi s o dinheiro que eles ganharam que me deixou feliz. Acontece que, se eles tivesse tido azar, iriam culpar os cus por no atenderem a suas 
preces. Jamais entenderiam que, afinal, jogo  jogo, e  estupidez misturar a f com tudo isso.
        Deirdre assegurou ao reverendo que a filha ficaria ausente durante uma semana. Depois, as duas combinaram os detalhes da volta. Ficaram de se encontrar na 
mesma estao em que Deirdre iria descer.
        Na noite anterior, Sacha no pudera dormir, preocupada com a responsabilidade que assumira, aceitando aquela farsa toda. Porm, naquela hora, ali no trem, 
acompanhada apenas da boa e calada Emily, sentia-se entusiasmada. Como no podia voltar atrs, o melhor era aproveitar ao mximo aquela viagem maravilhosa, confortvel 
e excitante.
        O compartimento particular daquele trem mais parecia uma casa. Sacha admirava a linda paisagem atravs da janela. Ela tentara conversar um pouco com Emily, 
mas esta s respondia como monosslabos. Pela poucas palavras que dissera e pela expresso de seu rosto, Sacha sabia que a boa criada estava apavorada de andar de 
trem e que esperava a qualquer hora um acidente. Assim, deixou-a sossegada, com seu aspecto respeitvel, vestida de preto, com um xale aos ombros e usando luvas 
de algodo.
        A viagem que tinham pela frente era longa. S chegariam ao castelo no dia seguinte  tarde. Os mais diversos pensamentos vinham  cabea de sacha.
        Ela lembrava-se de como Deirdre estava radiante ao encontrar-se com lorde Gerard. O que no podia compreender era por que a prima no tinha coragem suficiente 
para casar com o homem por quem estava apaixonada. Afinal, ele era um lorde tambm, e, pelo que pudera ver, um homem adorvel. Ele devia estar muito apaixonado por 
Deirdre para aceitar o plano dela. Sacha reconhecia, porm, que era impossvel um homem conhecer Deirdre e no se apaixonar por ela.
        Tinha que admitir tambm que a prima no era como lady Margaret, que aceitara a pobreza por amor a um homem. Sabia que Deirdre era egosta, jamais abandonaria 
o luxo em que vivia e jamais aceitaria no ser admirada e cortejada.
        De repente, teve uma saudade imensa da me. Sua casa era alegre, e lady Margaret era a alma de tudo. Seu amor e seu riso eram contagiantes. Ela era sempre 
til e prestativa,  e no tinha rancor contra qualquer pessoa.
        Quando morrera, os paroquianos choraram tanto por ela que parecia que haviam perdido um parente. Quase todos os presentes ao funeral falavam sobre as diversas 
maneiras como lady Margaret os havia ajudado e confortado. Como ela era irm do marqus de Langsworth, muitas famlias nobres se fizeram representar, mas Sacha sabia 
que os mais pobres eram de fato os mais sinceros ao lamentar a partida to prematura da bondosa senhora.
        Sacha sabia que, se Deirdre se tornasse duquesa de Silchester, s seria amvel e gentil com os da sua posio social, e jamais se preocuparia com o pessoal 
mais pobre que trabalhava nas imensas propriedades do duque.
        O reverendo sempre ensinara  filha que a maior doao era doar-se a si mesmo. E ela pensava que, se viesse a se casar um dia com um homem de quem muita 
gente dependesse, seria a primeira a se preocupar com que tivessem uma vida digna e sem privaes.
        At aquele momento Sacha seguira o exemplo de seus pais, e no tinha de que se envergonhar nem por que sentir-se omissa.
        J se aproximavam de Londres, e ela estava excitada, pensando que, ao mudar de trem, estaria indo para lugares que nunca imaginara poder chegar a conhecer.
        Pouco antes das onze, o trem parou na estao de Paddington. Por uns instantes o barulho e o grande nmero de pessoas nas plataformas fizeram com que Sacha 
ficasse aflita. Pensava no sr. Evans, temendo qualquer desencontro, quando a porta do vago onde ela e Emily estavam se abriu e um senhor magro, usando culos, cumprimentou-a. 
Era o sr. Evans.
        ? Bom dia, milady. O trem chegou exatamente na hora ? ele disse.
        Sacha estendeu a mo, dizendo:
        ? Obrigada por ter vindo encontrar-me.
        O sr. Evans pareceu um pouco surpreso, e Sacha pensou que, naturalmente, Deirdre no teria agido daquela forma. Talvez ela devesse ter sido mais formal ao 
se dirigir-se a ele.
        Um carregador viera apanhar a bagagem, inclusive sua luxuosa frasqueira. 
        Ao ganh-la, Sacha dissera:
        ? Oh, no, Deirdre! Voc no pode dar-me essa frasqueira! Empreste-me apenas, e eu a devolverei quando voltar.
        Mas a prima dissera, altiva:
        ? No a uso mais, sacha. As escovas, pentes e estojo que h nela tm acabamento de prata, mas papai deu-me uma nova, no Natal, cujos objetos de toucador 
tm acabamento de ouro.
        Sacha no pde deixar de pensar que um objeto como o que Deirdre acabara de mencionar deveria custar to caro, que talvez, com o dinheiro que custara, ela 
e seu pai pagariam as despesas de um ano, e ainda com um certo luxo.
        Ento arrependeu-se de estar fazendo comparaes. Devia estar agradecida, pois Deirdre parecia uma fada madrinha, cumulando-a de presentes, como se fossem 
produtos de uma varinha de condo. E Sacha jamais sonhara em ter aquilo tudo, nem em seus sonhos mais extravagantes.
        Os vestidos, luvas, chapus, sapatos e chinelos que ganhara eram tantos e to bons, que ela tinha certeza de que, mesmo vivendo muitos anos, no os gastaria.
        ? H duas carruagens esperando milady ? disse o sr. Evans ? A senhorita e sua ama iro na primeira carruagem, e eu as seguirei na outra, com as bagagens.
        ? Est bem ? disse Sacha.
        As carruagens eram luxuosas e traziam o braso de seu tio. Ao entrar, Sacha ficou receosa de que o cocheiro a estranhasse, mas ele apenas a cumprimentou 
com um aceno e no lhe dirigiu o olhar novamente.
        Eles atravessaram Londres, dirigindo-se  estao de Kings Cross, para tomar o Expresso Escocs, que partiria ao meio-dia e meia.
        Em Kings Cross era grande o alvoroo e a confuso. Havia muitos trens parados nas diversas plataformas, muita gente, montanhas de bagagensm guardas que apitavam 
e agitavam suas bandeirinhas, locomotivas soltando vapor e espirais de fumaa preta.
        O sr. Evans havia reservado todo um compartimento de primeira classe para ela e Emily. As refeies seriam servidas ali, para maior comodidade de ambos. 
Como iriam passar a noite viajando, tinham tambm mantas e travesseiros. Alm disso, ele entregou a Sacha uma lista com os nomes de todos os lugares onde o trem 
pararia, com os respectivos horrios das paradas. Depois, ausentou-se um pouco. No tardou a aparecer com uma pilha de revistas e jornais.
        ?  uma longa viagem, milady. Espero que se distraia com um pouco de leitura.
        ?  muita bondade sua ? disse Sacha, achando novamente que se comportava como Sacha, e no como Deirdre.
        De repente lembrou-se de que gostaria de ler alguma coisa sobre corridas de cavalos, e pediu:
        ? O senhor poderia comprar-me algum jornal com notcias esportivas? Gostaria de ler sobre as corridas de Epsom.
        Sem dizer nada, o sr. Evans afastou-se, e, pela expresso de seu rosto, Sacha notou que ele devia estar informado do noivado de Deirdre com o duque de Silchester.
        Logo depois ele voltou com trs jornais que Sacha jamais vira em sua vida.
        Ela agradeceu e despediu-se dele, pois o trem j ia partir.
        Ele se curvou respeitosamente, e Sacha acenou-lhe com a mo. Mesmo que aquelo gesto no fosse prprio de Deirdre, ela notou que agradara ao sr. Evans.
        Agora s iriam se preocupar em desembarcar na Esccia. Para sua surpresa, Sacha estava adorando a viagem e seus temores pareciam ter-se dissipado.
        Elas foram servidas com finas iguarias vrias vezes, tudo estava muito gostoso. Sacha comia pouco, mas Emily no se fazia de rogada. S desceram em Crewe, 
porque Sacha queria conhecer a estao. Emily a acompanhou, mas ficou agitada o tempo todo, com medo de o trem partir sem elas.
        Passaram uma noite agradvel, e mesmo Emily conseguiu dormir, depois que Sacha lhe assegurou que o trem no sairia dos trilhos nem iria acontecer nenhum 
acidente. Ela deixou de pensar no que teria pela frente e se entregou a um sono sem sonhos.
        
        No dia seguinte, mais ou menos ao meio-dia, passaram a fronteira com a Esccia. Sacha sentiu-se emocionada.
        ? Sempre quis conhecer a Esccia, Emily. Pense que estamos na terra os pantanais, das urzes, na terra onde os cavalheiros caam perdizes, galos-silvestres 
e faises, onde os rios so piscosos e a pesca de salmo  abundante.
        ? Ah, senhorita, parece muito solitria.
                Sacha continuou, como se no tivesse ouvido:
        ? A Esccia foi o bero de grandes estadistas, exploradores e pioneiros. Estes ltimos viajaram por todas as partes do mundo. E,  claro, temos de citar 
tambm Robert Bruce, Wallace e o prncipe Carlos Eduardo.
        Emily pouco entendia o que Sacha estava dizendo. Mas esta se sentia romntica, e gostaria de poder vir  Esccia mais tarde, na poca do ano em que as urzes 
se cobrem de flores roxas e os pssaros silvestres enchem e vida e se sons o pantanal e os vales.
        Mesmo assim, a paisagem era encantadora, com seus lagos, florestas, vales, colinas e montanhas. Era como Sacha supunha que fosse, pelo que j lera a respeito.
        Consultando a tabela de horrios que o sr. Evan lhe dera, verificou que chegariam a uma pequena estao s trs horas, e dali iriam para o Castelo de Strathconna. 
Mas o trem estava um pouco atrasado. Elas seriam esperadas por um criado vestido com traje escocs.
        Quando finalmente chegaram, Sacha logo reconheceu o criado que as conduziria ao castelo. Emily estranhou aquele modo de vestir, e disse:
        ? Imagine um homem desses, usando saia!
        Sacha riu e em seguida a porta abriu-se.
        O criado, usando kilt, a tradicional saia escocesa estava acompanhado de outro senhor, que usava chapu coco. Devia ser um criado de posio superior. Este 
ajudou Sacha a descer, deu-lhe as boas vindas e a escoltou at at as carruagens, cada uma delas puxada por quatro cavalos magnficos.
        Sacha foi sozinha na primeira carruagem, e Emily e os dois criados foram na segunda, com a bagagem.
        Durante a viagem, ela ia admirando os bosques de pinheiros, os campos, as colinas. S depois de uma hora avistaram o castelo, que ficava em uma colina, erguendo-se, 
imponente, tendo como pano de fundo o azul do cu. Ao sop da colina passava um rio de guas cristalinas, com muitas pedras no leito, que produzia um agradvel murmrio. 
Sacha pensou que devia haver muito salmo naquele rio.
        De repente, pensou no duque. No se podia caar, pois era poca de reproduo. O duque se ferira, naturalmente, numa armadilha montada para prender gatos 
selvagens que eram o terror os fazendeiros e caadores, pois devoravam umas vinte e cinco aves domsticas ou silvestres por dia. Com o acidente do duque, Sacha esperava 
que pelo menos na vizinhana, o uso dessas armadilhas fosse proibido ou desestimulado.
        Quando chegaram ao castelo, ela fitou embevecida, admirando as rvores que o circundavam. Olhou pra cima, vendo a bandeira agitada pelo vento, na torre mais 
alta, esquecida, por uns instantes do que a esperava.
        A carruagem atravessou os portes, e s ento Sacha comeou a ficar com medo.
        Pensou que podiam reconhec-la como impostora, mandando-a de volta no primeiro trem, coberta de vergonha. Pior que isso seria ter que agentar toda a fria 
que Deirdre iria descarregar sobre ela.
        Por favor, meu Deus, faa com que todos pensem que sou Deirdre!, orou mentalmente, com todo fervor.
        Ento a carruagem parou.
        Dois criados, tambm usando traje escocs, estavam esperando em frente  enorme e pesada porta e madeira, com gonzos, ferrolhos e grandes tachas de bronze.
        ? Bem vinda ao Castelo de Strathconna, milady!
        O corao de Sacha disparou e ela conseguiu dizer meio tmida:
        ? Estou muito feliz em estar aqui.
        O criado que devia ser o mordomo, foi  frente dela. Passaram por um enorme salo, com cabeas de vrios animais empalhadas nas paredes. Depois subiram por 
uma escada muito larga, que dava para o primeiro andar. Sacha lembrou-se de que sue pai lhe havia dito que castelos escoceses costumavam ter as principais salas 
no primeiro andar, mas no conseguiu lembrar a razo disso. Entraram num hall, onde havia outro criado, tambm vestindo traje tpico, que anunciou:
        ? Lady Deirdre Lang, Alteza!
        Sacha entrou numa sala ampla e viu uma senhora idosa, de cabelos brancos, erguer-se de uma poltrona. Sai silhueta esguia banhou-se no sol a tarde, que penetrava 
pelas grandes janelas. Era a duquesa, a av do duque de Silchester.
        Apesar da idade, ainda era bonita, e Sacha imaginou que deveria ter sidol linda quando jovem.
        Fez uma reverncia para a duquesa. Seu corao estava aos saltos, mas, quando viu a idosa senhora, acalmou-se, pois notou que ela parecia muito bondosa, 
fazendo-a lembrar-se de sua me.
        A duquesa foi muito suave e gentil ao dizer:
        ? Fico muito feliz por voc ter vindo, minha querida!  para mim a maior felicidade t-la conosco, e sei que Talbot ficar emocionado  exultante com sua 
companhia.
        ? Foi muito amvel de sua parte convidar-me. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para minorar o sofrimento do duque. E... como est... Sua Alteza?
        Sacha pensou que seria a maneira mais correta de se referir ao duque, uma vez que o noivado eles no era oficial.
        ? Tenho muito a lhe contar, minha querida, mas primeiro acho que voc vai querer lavar-se e tomar um ch. Talvez depois queria trocar essa roupa. Sei que 
essa viagem  muito cansativa.
        ? Achei a viagem muito interessante. Tudo foi novidade para mim, pois jamais estive no norte da Inglaterra, nem na Esccia.
        Ao dizer isso, Sacha pensou se no estaria cometendo algum engano. Mas se Deirdre tivesse feito essas viagens antes, ela teria sido avisada, com toda certeza.
        ? Essa experincia ser repetida muitas vezes, tenho certeza, pois Talbot vem para o castelo todos os anos, no s para visitar-me, como tambm para pesca 
do salmo.
        A duquesa acompanhou Sacha at seus aposentos. Passaram por um longo corredor, cujo assoalho era recoberto, em vez de por um tapete comum, por um grosso 
tecido de l escocesa, feito artesanalmente.
        Os aposentos de Sacha tambm ficavam no primeiro andar.
        No quarto havia uma cama grande, com quatro colunas altas e uma lareira, que, para sua surpresa, estava acesa.
        ? Mandei acender a lareira ? disse a duquesa ?, porque quem vem do sul sempre estranha o frio aqui no norte.
        ? Foi muita bondade sua ? Sacha exclamou ? E que lindo quarto!
        Enquanto falava, aproximou-se da janela e viu a bonita paisagem. A vegetao se estendia at se perder no horizonte distante, e ao lado do castelo havia 
um grande lago.
        ? Esse lago que est vendo  o lago Conna ? disse a duquesa ? Depois quero contar-lhe algumas lendas sobre ele. Tenho certeza de que as achar interessantes.
        ? Gostaria muito, Alteza.
        ? Esta aqui  sra. Macdonald, a governanta, que cuidar de voc. Enquanto tomamos nosso ch, traro sua bagagem para cima. Depois ento, poder se trocar, 
e em seguida iremos ver Talbot.
        
        Sacha estava maravilhada com o ch  escocesa. Havia ali comida para um regimento. Ela se deliciava com tudo. Havia bolos e biscoitos de aveia, rocamboles, 
bolachas, biscoitos, vrios tipos de po e um bolo de gengibre que a duquesa disse ser o favorito do duque. Ela provou o mel, bem mais escuro e que, segundo a explicao 
da duquesa, era feito no outono, quando as urzes estavam em flor. Era delas que as abelhas sugavam o nctar.
        ? Se eu comer sempre assim, estarei muito gorda quando deixar o castelo ? disse Sacha.
        A duquesa sorriu e disse:
        ? Ns, do norte, nos orgulhamos de ter a melhor comida do reino.
        ? Vossa Alteza  escocesa, no?
        ? Sim. Tenho muito orgulho disso. Nasci aqui. Casei-me com o segundo duque, que era ingls, e vivemos na Inglaterra. Quando meu marido morreu, voltei para 
c, pois sabia que seria muito mais feliz vivendo m minha terra do que entre os saxes.
        ? E mora aqui sozinha o ano todo?
        ? Tenho muitos parentes e amigos que moram perto e sempre me visitam. Aqui na Esccia ningum acha difcil viajar. Sei que na Inglaterra no  assim. Aqui, 
todos acham muito natural um convidado viajar dez milhas para uma festa e  muito freqente passar a noite na casa do anfitrio.
        ?  mesmo maravilhoso esse relacionamento entre vizinhos.
        ? Tambm tenho orgulho da hospitalidade escocesa. E agora, querida, se quiser, poderemos ir ao encontro de Talbot, que deve estar ansioso para agradecer-lhe 
por ter vindo.
        Como a duquesa no s levantasse da mesa, Sacha esperou, sentindo que ela ainda queria dizer alguma coisa importante.
        ? Quis que voc viesse ? a duquesa comeou a falar, de maneira pausada ? porque Talbot tem estado to deprimido... Voc sabe... os olhos dele... Est to 
preocupado! Sei que voc ir anim-lo. Conto muito com seu apoio.
        ? O que posso fazer para... ajudar?
        ? Os mdicos esto muito otimistas, mas no sei...
        ? H perigo de o duque ficar permanentemente cego? ? Sacha perguntou, ansiosa.
        ? Sei que  isso que o tem deixado deprimido. Quero que voc o convena a confiar nos mdicos e na boa sorte j que teve o azar de cair naquela armadilha 
quando foi pescar.
        ? Sempre achei esse tipo de armadilha uma crueldade! ? disse Sacha aquilo com tanta veemncia, que talvez soasse um tanto rude.
        ? Estou convencida de que est certa ? a duquesa concordou. ? Nas minha propriedades, ningum poder us-las. Esto terminantemente proibidas.
        ? Estou feliz em ouvir isso. Mas qual a gravidade do ferimento de Sua Alteza?
        ? Tiraram muitos estilhaos de seu corpo, mas ele teve que se submeter a auma nova cirurgia para remover um pedao de metal maior, que, devido  posio, 
preocupa os mdicos. Eles exigem tambm que Talbot fique o mais imvel possvel, para no comprometer a viso.
        ? Compreendo.
        ? Quero que convena meu neto a seguir  risca o conselho dos mdicos e a no se exasperar.
        ? Tentarei ? disse Sacha com simplicidade.
        A duquesa levantou-se.
        ? Enquanto voc vai mudar o vestido, esperarei na saleta.
        Como Sacha no queria faz-la esperar muito, trocou-se o mais rapidamente que pde, ajudada por Emily e pela sra. Macdonald. Duas outras criadas estavam 
acabando de tirar os vestidos do ba de couro  e de pendur-los no guarda-roupa. Agora ela podia ver melhor como eram lindos! Havia-os nas mais variadas cores e 
tecidos. Como fora Hanna que os separara, Sacha no sabia ao certo o que viera em sua bagagem. Ela se sentia feliz e entusiasmada, porque pela primeira vez vestia 
as mais finas roupas que se podia comprar na Bond Street.
        Naquele castelo de contos de fadas, naquele pas to lindo e excitante, Sacha sentia-se como uma princesa das histrias que lia quando criana.
        O traje que estava usando era azul-claro, enfeitado com rendas no decote e nas mangas. Emily arrumou seu cabelo muito bem, no mesmo estilo que Deirdre usava. 
Quando se olhou no espelho, teve a sensao de que no era sua imagm que via refletida, e sim a da prima.
        Terminando de se arrumar, foi depressa para a sala onde a duquesa a esperava.
        ? Voc se trocou muito depressa, querida! E est linda! Talbot disse-me que voc era a pessoas mais maravilhosa que j conhecera, e vejo que no exagerou.
        ?  muita bondade de sua parte, Alteza ? disse Sacha timidamente.
        ? S estou triste porque Talbot no vai poder v-la com essa roupa to bonita. Mas estou certa de que ele logo voltar ao que era antes. Como voc deve saber, 
os escoceses acreditam em clarividncia e profecias. Estou certa de que o que acabei de afirmar sobre meu neto vai logo tornar-se realidade.
        ? Tenho certeza que sim.
        J estavam diante da porta do quarto o duque, e o medo tomou conta de Sacha novamente. Ela sentia o estmago enjoado, e parecia que sua voz sumira.
        A porta grande e alta se abriu e um homenzinho magro disse respeitosamnte:
        ? Boa tarde, Alteza! Boa tarde, milady!
        ? Como est seu paciente, Tomkins? ? perguntou a duquesa.
        ? Penso que Sua Alteza est melhor.        
        A duquesa voltou-se para Sacha.
        ? Tomkins tem estado com meu neto desde que era rapazinho. Ele no s  um timo camareiro, como tambm enfermeiro excelente.
        Tomkins sorriu e foi abrir uma outra porta. Eles estavam em um vestbulo, e, depois de aberta a segunda porta entraram num quarto bem amplo, onde Sacha pde 
ver um homem de venda nos olhos, deitado numa cama enorme, toda entalhada e com quatro colunas altas.
        ? Esto aqui Sua Alteza e lady Deirdre, Alteza.
        Sacha prendeu a respirao e a duquesa aproximou-se do neto, dizendo:
        ? Deirdre chegou, Talbot. Fez essa viagem to longa para v-lo, e estou felicssima em t-la conosco.  mesmo uma pessoa encantadora!
        ? Deirdre! Onde est?
        A voz do duque era grave e profunda.
        ? Eu... Estou aqui!
        Sacha aproximou-se da cama e ps a mo nas de Talbot que as estendera.        
        ? Que bom que voc veio! Mas sua mo est fria!
        ? J mandei acender a lareira nos aposentos dela. Aqui no norte  bem mais frio, Talbot.
        Sacha no conseguia dizer nada. Ficou uns instantes ao lado de Talbot, com a mo entre as dele, sentindo-se melhor, como se dele emanasse uma fora inexplicvel.
        A duquesa, achando que a moa estava constrangida com sua presena, achou melhor sair. Ento disse: 
        ? Bem, vou deix-los a ss, pois devem ter muito que conversar. Mas receio que no possa ficar por muito tempo, Deirdre, querida, pois voc  a primeira 
visita que Talbot recebe, e ele no deve s cansar. Depois que sair, repouse um pouco antes do jantar.
        Saiu sem esperar resposta.
        ?Estou to surpreso com sua visita! ? disse o duque.
        ? Surpreso?
        ? Vov disse-me que lhe havia escrito, mas no supus que viesse.
        ? Fiquei to triste ao saber de seu... acidente!
        ? ficou realmente aborrecida?
        ? Claro! Foi to... horrvel!
        O duque soltou-lhe a mo, e ela sentou-se numa poltrona que havia ao lado da cama.
        Agora podia olhar melhor para ele. Era e fato um homem extremamente bonito.
        Sua testa era larga, os cabelos escuros estavam bem penteados e puxados para trs, o nariz era reto e aristocrtico, o queixo, quadrado e a boca, firma e 
decidida.
        Ela no podia ver-lhe os olhos, mas supunha que fossem profundos.        
        A voz de Talbot desviou-a de sua anlise.
        ? A quantos bailes e festas teve que renunciar para vir visitar-me?
        Sacha notou o tom zombeteiro e disse com simplicidade:
        ? No m preocupei com nada disso, pois estava aborrecida com o que lhe acontecera.
        ? Estou no s honrado, mas tambm muito vaidoso! Mas, para ser sincero, apostaria cem contra um como voc iria arranjar uma boa desculpa para no vir  
esccia. Sei que realmente no gosta deste pas.
        ? Como poderia algum deixar de gostar e um lugar como este?  tudo muito bonito, e o castelo  encantador.
        Como ele no respondesse, Sacha continuou:
        ? assim que entrei na Esccia, senti-me como se estivesse voltando ao passado. Pensei nos escoceses reunidos nos vales, em seus primeiros cls, e imaginei-os 
escondendo-se quando os vikings vieram pelo mar do Norte saquear as vilas. E no poderia deixar de pensar em Bonnie Prince Charlie e em sua lealdade e amor pelo 
pas, embora sua luta terminasse de maneira to desastrosa.
        A voz de Sacha revelava a emoo que estava sentindo. Ela sempre se emocionava com a histria triste de jovem prncipe.
        ? Estou surpreso, Deirdre, porque jamais pensei que voc pudesse sentir tudo isso por este pas. Eu tambm sinto exatamente a mesma coisa quando estou na 
Esccia.
        ? Voc pensa no passado quando est pescando?
        ? s vezes. Mas geralmente estou bem concentrado num salmo, e procurando fisg-lo no momento exato.
        ? Deve ser fascinante!
        ? Quer dizer que gostaria de aprender a pescar?
        ? Adoraria! ? Sacha disse com entusiasmo.
        Ao dizer isso, lembrou-se de que jamais iria pescar com o duque, porque jamais voltaria quele maravilhoso castelo.
        ? Isso faz-me pensar que  melhor tratar de ficar o mais depressa possvel.
        ? Voc sabe que isso  realmente necessrio. E se estiver acreditando seriamente nisso, seu desejo tornar-se realidade. Podemos conseguir tudo o que quisermos, 
se realmente o desejarmos.
        ?  essa a sua filosofia?
        ? Diria que  um tipo de concentrao do poder da vontade e da determinao, da meditao. Pode chamar at mesmo de f ou de poder da orao.
        ? Voc tem orado por mim, Deirdre?
        ? Claro que sim!
        Ao dizer isso, Sacha lembrou-se de que deveria ter dito que rezara tambm para ele no descobrir que ela era outra pessoa...


Captulo III

        Sacha acordou e por uns instantes no conseguiu lembrar onde estava. O sol que se infiltrava atravs as cortinas iluminava o quarto, de teto muito alto. 
Olhando ao redor, viu a lareira j apagada, a cama com as quatro imponentes colunas, uma poltrona e as outras peas que havia no lindo quarto. Estava na Esccia!
        Ento, tudo lhe veio  mente. Quando deixara os aposentos do duque e viera para os seus, encontrara Emily esperando por ela. A criada lhe disse:
        ? Enquanto preparo seu banho, por que no descansa um pouco? Tenho certeza de que est muito cansada. Posso cham-la daqui a meia hora.
        Emily ajudou-a a tirar o vestido e a colocar uma camisola. Sacha aceitou a ajuda, mas sentia-se meio intil com todos aqueles cuidados.
        Pouco depois de repousar a cabea no travesseiro, ela caiu num sono profundo, e s quela hora percebia que no se havia levantado para o jantar. Dormira 
direto at a manh seguinte.
        Estava muito cansada, no s devido  longa viagem, mas tambm porque vivera as ltimas horas sob tenso.
        Agora, porm, estava feliz porque passara no primeiro teste brilhantemente. Sentia-se disposta e queria viver intensamente aqueles dias, naquele mundo completamente 
novo para ela.
        Sentou-se na cama, e seu primeiro impulso foi saltar dali e abrir as cortinas. Mas sabia que, como uma lady, deveria chamar a criada e esperar que tudo estivesse 
preparado para sua toilete matinal.
        ? Acordou, milady! ? exclamou Emily, entrando no quarto, toa eufrica ? Parece que teve uma tima noite!
        ? Sinto ter deixado de comparecer ao jantar com Sua Alteza! Isso no foi delicado de minha parte.        
        Enquanto Emily caminhava at as janelas para abrir as cortinas, foi dizendo:
        ? Ontem  noite a Sra. Macdonald veio at aqui para ver se tudo estava bem, e quando viu que estava dormindo, milady, no quis acord-la. Foi ento at a 
duquesa, e esta deu ordens expressas para que ningum lhe perturbasse o sono. Sua Alteza disse que a senhorita merecia descansar, depois de uma viagem to longa.
        ? Estava cansada, realmente, mas achei a viagem muito confortvel. E voc, o que achou, Emily?
        ? No foi to horrvel como achei que seria. Mas, para falar com franqueza, detesto trens!
        Sacha sorriu.
        Emily trouxe gua quente e preparou-lhe o banho. Depois, ela vestiu mais simples, ficou linda, usando um traje que a deixava muito elegante. Nem de longe 
parecia a pobre mocinha que vivia na casa paroquial.
        Enquanto pensava nisso, andava com graa pelo longo corredor, para ir ao encontro da duquesa.
        ? Por favor, perdoe-me, Alteza, por ser indelicada a ponto de deixar de vir jantar em sua companhia. Deitei-me para repousar um pouco e s acordei h uma 
hora atrs.
        ? Achei que foi a coisa mais sensata que poderia ter feito. E agora, estou certa de que est ansiosa para ver Talbot. Depois daremos uma volta, para conhecer 
o castelo. Est um lindo dia. Sei que vai adorar o jardim.
        ? Gostarei imensamente de conhecer to o castelo. Parece que estou vivendo em um conto de fadas ? disse Sacha, entusiasmada.
        A duquesa disse, sorrindo:
        ? E com certeza vai se casar com o prncipe encantado! Esse  o fim de todo conto de fadas.
        Aquelas palavras fizeram Sacha pensar que seu conto de fadas iria terminar quando ela voltasse  sua casa humilde, e que jamais voltaria a ver o duque. Seria 
muito arriscado.
        Isso significava que, sempre que houvesse festas na Casa Grande, ela no poderia comparecer, e talvez nem fosse convidada para as bodas de Deirdre e do duque.
        Enquanto estava representando o papel de Cinderela, devia faz-lo o melhor possvel. Ganhara da fada-madrinha as belas roupas, tinha lindas carruagens  
sua disposio  no teria que sair correndo quando soasse a meia-noite nem deixar para trs o sapatinho de cristal.
        Chegaram aos aposentos do duque, e Tomkins abriu-lhes a porta.
        ? Como est Sua Alteza esta manh? ? perguntou a duquesa.
        Tomkins respondeu em voz baixa:
        ? Sua Alteza teve uma noite pssima, e receio que esteja muito triste esta manh.
        ? Oh, meu Deus! Acho melhor deix-lo com lady Deirdre. Ele precisa mais dela do que de mim.
        Ela voltou-se para Sacha, dizendo:
        ? Anime-o querida! No podemos deix-lo deprimido. Ele precisa de toda a fora e confiana antes da cirurgia.
        Depois que a duquesa se afastou, Tomkins abriu a porta do quarto do duque e anunciou:
        ? Lady Deirdre Lang veio visit-lo, Alteza.
        Um tanto nervosa, Sacha aproximou-se da cama e notou que o duque estava com os lbios comprimidos e parecia angustiado.
        Ela disse, tentando anim-lo:
        ? Est um dia lindo! Parece que me d as boas-vindas  Esccia. Quer que lhe descreva a manh?        
        O duque ficou um momento em silncio, depois disse, com uma nota triste na voz:
        ? Pode descrev-la, se quiser. Enquanto ouo, o que eu posso fazer  pensar, com tristeza, que  bem provvel que jamais volte a ver a luz do dia.
        Sacha foi at a janela e comeou a dizer:
        ? A paisagem  maravilhosa. O pantanal est, como numa pintura, matizado de tons diversos. O lago ao longe est banhado pelo sol, que produz reflexos dourados 
na gua, e o cu est muito azul...
         ? Muito potico ? observou o duque, num tom levemente sarcstico ?, mas, uma vez que tenho que confiar em suas descries, fico feliz m saber que se expressa 
to bem!
        ? Est realmente convencido de que no ir recuperar a viso? Que tolice! ? disse Sacha com ternura.
        ? No quero falar nisso. J  ruim demais estar aqui suportando esta cegueira. Falar sobre esse assunto  duplamente doloroso.
        ?  muita tolice sua pensar assim! ? A voz de Sacha era firme desta vez. ?  isso mesmo que deseja que acontea?
        ? Como assim?
        ? Devemos saber que somos produto daquilo que pensamos. Se nossos pensamentos so otimistas, seremos bem-sucedidos, e se foram pessimistas, tenderemos a 
fracassar.
        ? Isso  bobagem!
        ? H fatos reais de pessoas que se curaram porque acreditaram que poderiam faz-lo. H muitos livros sobre o assunto.
        ? Est falando de milagres?
        ? Os milagres so os exemplos mais extraordinrios de curas ou acontecimentos aceitos pela Igreja como uma intercesso divina. Mas falo de pequenos milagres 
que acontecem diariamente a milhares de pessoas e que nem sempre se comenta. Pode ter certeza de que eles so o resultado de pensamentos corretos, cheios de confiana, 
e esperana ou de f, se preferir assim.
        O duque demorou a responder, como se refletisse sobre o que ela dissera. Depois, disse, quase que de maneira agressiva, como se estivesse querendo discutir.
        ? No posso acreditar que sem remdios se chega a uma cura. Essas histrias d curas miraculosas so exploradas por fanticos de todas as religies. Eles 
se apegam ao sobrenatural porque so fracos ou ignorantes.
        ? A religio e a f so coisas maravilhosas, e podem trazer benefcios. Pense nos grandes centros religiosos do mundo, como Meca e as cidades da ndia, e 
na longa lista de santos que abalaram o mundo, fazendo grandes milagres que acontecem com pessoas simples, at sem instruo, s porque creram. Gostaria que pensasse, 
bem no fundo de seu corao e com toda a fora de sua mente, que ir recuperar-se, e estou certa de que assim ser. Ficar mais calmo e ajudar seu organismo jovem 
e forte a reagir.
        ? Voc fala como se tivesse experincia. Quando esteve em contato com gente simples, Deirdre?
        Sacha sabia que Deirdre jamais tivera o tipo de experincia que ela descrevera, e ento disse:
        
        ? Meu tio  pastor a parquia de Little Langsworth. Ele sempre fala sobre fatos dessa natureza. Sua esposa, lady Margaret, ajudava o povo a parquia, ensionando-os 
a alimentar-se adequadamente, e a fazer remdios caseiros e a conhecer ervas medicinais. Com esses ensinamentos, conseguia ajudar os pobres, fazendo-os restabelecer-se 
de vrias doenas.
        ? Ento acha que eu tambm me recuperarei se comer o que for adequado para meu caso?
        Pelo tom de voz do duque, Sacha notava que ele estava zombando dela. Depois de pensar um pouco, disse:
        ? Talvez seja muita pretenso de minha parte querer dar-lhe alguma sugesto sobre o que seria interessante fazer ou... evitar, mas vou externar meu modo 
de pensar. Primeiro, deve evitar pensamentos negativos, que s trazem angstia e retardam o processo e cura. Segundo, deve ter uma alimentao adequada, com muita 
verdura, principalmente crua.
        ? Simples assim?
        ? No s simples, mas tambm sensato e lgico! Uma boa leitura sempre ajuda a nos distrair e a fugir e pensamentos ruins. Se gostar, poderei ler-lhe alguma 
coisa interessante. Alm disso, poderemos falar sobre os pontos que forem dignos de comentrios.
        ? Acho uma idia excelente, se no achar muito aborrecido fazer isso para este pobre cego.
        ? Adoro ler! Vou apanhar um livro que, espero, aprecie.
        Dizendo isso, Sacha levantou-se, pediu licena e foi at o seu quarto. Pegou um dos livros que seu pai escrevera e que sempre levava consigo aonde quer que 
fosse. No ficava uma noite sem pelos menos ler um trecho dele.
        Voltando para perto o duque, notou que ele estava mais calmo e parecia mais interessado.
        Folheou o livro rapidamente at achar a passagem que queria. Ento disse:
        ? O trecho que vou ler fala sobre o sol. Pense na luz que l nos d, como os gregos antigos pensavam. Para eles, a luz do sol era a prpria vida.
        Ela comeou a ler pausadamente:
        ?  Ao amanhecer, o corpo todo de Apolo iluminou o cu. Intensamente viril, lanou milhares de centelhas de luz, curando tudo o que tocava, fazendo germinar 
as sementes e desafiando o poder das trevas.
        Fez uma pausa, pensando que talvez o duque quisesse fazer algum comentrio. Como l permanecesse quieto, ela continuou:
        ? Ele no era o sol apenas, era a lua, os planetas, via-lctea e as mais plidas estrelas. Era o brilho das ondas, a luz do olhar, a alegria radiosa de 
um rosto de criana. Era tambm o mgico raio de luz nos campos, nas noites mais escuras, e, sempre que a primavera se anunciava no alto de um monte, ele estava 
presente, pois naquele momento participava ao mundo um novo nascer.
        Deixando o livro nos joelhos, Sacha disse:
        ? A luz tem poder curativo! Imagine que tem dentro de si uma luz que no se apaga. Ela est presente em tudo o que nos cerca, e  essa centelha que nos anima!
        O duque continuou calado. Sacha ergueu-se e foi at a janela.
        Olhava os tons dourados, arroxeados e verdes da vegetao, que resplandeciam  luz do sol, e via tambm o brilho do lago e das rochas, associando tudo aquilo 
ao trecho que acabara de ler. Era maravilhoso poder ver! O duque haveria de ter m breve a luz de seus olhos de volta!
        Ele a chamou:
        ? Deirdre, onde est voc?
        ? Estou aqui, perto da janela. No sei se o que li lhe fez bem... Talvez o tenha aborrecido...
        ? No me aborreceu, de modo algum! Estou apenas surpreso! Nunca pensei que gostasse desse tipo de leitura. Isso  novidade para mim.
        ? Estudei grego e a histria da Grcia antiga. Voc tambm deve ter estudado.
        ? Isso foi h muito tempo. Mas prometo que vou pensar sobre o que leu e sobre tudo o que me disse. Pode ficar orgulhosa por ter conseguido animar-me. Estou 
at mais confiante! Vou tambm seguir seu conselho sobre a alimentao. Vov vai ficar exultante.
        Seria timo se pudesse comer salmo fresco e aves silvestres.
        ? Nesta poca do ano no caamos.
        ? Sim, eu sei. Quando cheguei  Esccia, pensei que, se tivesse vindo mais tarde, veria as urzes florescendo, e muito mais bonitas do que esto agora.
        ?  muito fcil ? disse o duque. ? Voltaremos aqui em agosto. No acha uma idia excelente?
        Sacha sentiu uma pontada no peito, pois era mais do que certo que jamais poderia voltar quele castelo. Ento disse procurando ser o mais natural possvel.
        ? Imagino como tudo estar ainda mais maravilhoso no vero!
        ? E quanto  alimentao mgica para minha recuperao?
        Sacha resolveu ignorar seu sarcasmo. Sabia que poderia ajud-lo, como sua me tantas vezes fizera com as pessoas da vila. Ento disse, delicadamente:
        ? Se achar que sua av no ficar ofendida, gostaria de pedir  cozinheira que lhe preparasse suco de cenoura e tambm muita salada d verduras cruas em cada 
refeio.
        ? Quer dizer que confia mais nessa dieta do que nas plulas e comprimidos que os mdicos me receitarem?
        ? No quero comparar uma coisa com a outra. Mas tenho certeza de que uma alimentao saudvel e natural faz maravilhas! Ela vem o solo que Deus nos deu, 
e no de fbricas. 
        ? Onde  que a minha queria Deirdre andou aprendendo tudo isso? Realmente, estou surpreso em saber que tenho a noiva mais perfeita com a qual um homem pode 
sonhar. Ou... estar apenas querendo tirar-me da depresso e... acenando-me com falsas esperanas?
        ? J que no pode ver pela minha expresso se estou mentindo, use seu instinto e sinta se sou ou no sincera quando lhe falo dessas coisas. Usar nosso instinto, 
ou uma espcie de sexto sentido,  algo que sempre negligenciamos.
        ? Voc acredita que possamos usar esse tipo de percepo para julgar as pessoas? Acreditaria que poderia saber mesmo se est me enganando ou no?
        ? Isso mesmo. Se treinarmos nossa percepo e formos observadores, pelo tom de voz, ou, mais importante ainda, pelo que sentirmos quando estivermos conversando 
com uma pessoa que estiver perto de ns, poderemos saber se a pessoa  sincera ou falsa.
        ? Sei de um modo melhor que esse ? disse o duque ? Deixe-me toc-la. Para mim ser quase que o equivalente a v-la. Espere s e saberei se est dizendo a 
verdade ou no.
        Por um momento, Sacha hesitou. Temia apenas que ele descobrisse que ela no era Deirdre. Mais do que nunca, sentiu-se tola por ter-se envolvido em to confusa 
situao. Mas Deus sabia como ela era honesta e s queria o bem daquele homem, que j prendera a querer bem e a quem talvez pudesse ajudar.
        Como o duque estava com a mo estendida, ela inclinou-se, ps a mo na dele e deixou-o tocar sue rosto com a outra mo. Seu medo transformou-se numa sensao 
agradvel quele toque. Sentiu como se uma vibrao forte viesse das mos ele, transmitindo-lhe um inexplicvel bem-estar. Sentia que Talbot era um homem de personalidade 
surpreendente.
        ? Meu instinto diz-me que posso acreditar em voc.
        ? Fico muito feliz em ouvir isso. Teria ficado aborrecida se, por um instante sequer, tivesse duvidado de mim.
        ? Acredito que seria muito difcil para voc ter que mentir a quem quer que fosse. ? O duque apertou a mo dela carinhosamente, e continuou: ? Quando se 
quer muito bem a uma pessoa, at o silncio  significativo.
        Sacha prendeu a respirao, e ele perguntou:
        ? J esteve... apaixonada?        
        ? No... nunca! Isto , estamos falando do passado...
        ? Sim, claro. Fico feliz em saber que no esteve apaixonada, a no ser por mim!
        Aquele era um terreno perigoso, e Sacha desejava mudar de assunto. Tirou a mo da dele, dizendo:
        ? Vai pr minhas idias em prtica?
        ? Se isso lhe agrada tanto, farei tudo com prazer. Estou disposto a seguir suas idias nada ortodoxas. E se der tudo certo, o mrito ser todo seu!
        ? Fico contente, pois estou certa de que s lhe far bem.
        ? Agora, fale-me mais a respeito de seus estudos sobre a Grcia antiga.
        ? Acho que os gregos ensinaram o mundo  a pensar. Os filsofos gregos ensinaram os homens a acreditar em si prprios. Scrates estabeleceu as bases da cultura 
ocidental, e dirigiu seu pensamento filosfico  anlise do carter e da conduta da vida humana, que ele determinou em termos de uma teoria original da alma.
        Terminando de falar, percebeu que o duque estava atento, mas devia estar estranhando sua atitude. Deirdre jamais falaria sobre aquilo. Resolveu no continuar, 
embora o assunto a apaixonasse. Fazendo um esforo, disse:
        ? Por que continuar esse assunto, se tenho algo excitante para lhe dizer?
        ? E o que ?
        ? Seu cavalo ganhou a terceira corrida em Newmarket na segunda-feira.
        ? Como sabe disso? ? o duque perguntou, surpreso. ? No fui informado sobre isso!
        ? Suponho que os jornais ainda no tenham chegado aqui. Ou ento, no pediu a ningum que lhe lesse sobre as corridas. A informao estava no Notcias Esportivas 
que li no trem, ontem. Fui uma tola em deixar o jornal no trem.
        ? Agora que penso no assunto, vejo que ningum tem me falado sobre os jornais desde meu acidente.  uma forma de me manterem quieto. Toque a sineta e mandarei 
que me tragamos jornais imediatamente!
        ? Acalme-se, ou eu me arrependerei de ter tocado no assunto, deixando-o to excitado.
        ? Estou calmo. No se preocupe.
        ? Toda essa excitao no vai fazer-lhe bem. Lembre-se das ordens mdicas.
        ?Voc  um mdico de agora em diante. Assuma essa posio!
        Sacha deu uma risada breve, dizendo:
        ? Por favor, no me assuste! Se ficar falando desse jeito, sua av vai ficar zangada e comigo e me mandar de volta no primeiro trem.
        O duque sorriu e ela ficou contente por ver que todo aquele aspecto sombrio de poucos instantes atrs havia desaparecido. Ele parecia outro homem. Disse 
alegremente:
        ? Est a uma coisa que teremos que evitar a todo custo! Devo confessar-lhe que estou adorando sua companhia. Estou fascinado e... intrigado... Voc  mais 
maravilhosa do que pensei que fosse.
        ? Por que disse intrigado?
        ? Estou intrigado por descobrir novos aspectos e seu carter que no conhecia. Pensei que gostasse apenas de festas e da vida social de Londres. Mas foi 
tolice de minha parte. Perdoe-me.  que, sendo to linda, deve mesmo  estar sempre brilhando nos sales.
        Sacha respondeu suavemente:
        ? J que no teremos bailes no castelo, acho que seria uma boa idia para ambos falarmos sobre nossos interesses e nos conhecermos melhor. E um interesse 
comum so seus cavalos.
        ? Pensei que no estivesse muito interessada em cavalos. A no ser nas corridas de Ascot, claro!
        ? No  bem assim. Estou sempre ocupada com tantas coisas... Quanto a voc, sei que sempre gostou de cavalgar bastante pela manh.
        ?  um hbito que sempre cultivei. E agora, se eu prometer ficar bm calmo, poderia fazer o favor de tocar a sineta para pedir o jornal e depois l-lo para 
mim?
        ?Farei tudo o que desejar. Mas, por favor, lembre-se de que muita movimentao, irritao, raiva e pessimismo devem ser evitados a todo custo.
        ? Nunca poderia imaginar ? disse o duque sorrindo ? que a moa mais linda que j conheci fosse tambm uma feiticeira. Sim,  isso mesmo que voc ! Se vivesse 
na Esccia h um sculo atrs, seria queimada viva, numa fogueira.        
        Sacha notou que ele estava sempre procurando um novo assunto. Ser que estaria querendo test-la, desconfiado de que ela no fosse Deirdre? Resolveu ser 
mais prudente e disse com simplicidade.
        ? J li sobre isso. Era uma crueldade. Mas no falemos nisso.
        ? J vi que gosta d varrer tudo o que  desagradvel para debaixo do tapete. Que modo nada prtico de enfrentar o mundo!
        Sacha sorriu.
        ? Acho melhor tocar a sineta, se quiser mesmo que leia os jornais para voc.
        Acabando de dizer isso, ouviu um barulho. Era Tomkins, que vinha carregando uma grande bandeja.
        ? Trouxe alguma coisa para Vossa Alteza.
        ? Que  isso?
        ? A cozinheira preparou este caldo, que  muito nutritivo, Alteza.
        ? Se  o mesmo caldo de ontem, pode jogar fora.
        ? Tenho uma idia ? interrompeu Sacha. ? Por favor, pea  cozinheira para tirar o suco de algumas cenouras e de um pouco de aipo, pr um pouco de sal e 
mandar para Sua Alteza.
        ? Sim, milady.
        ? Por favor, Tomkins. Sua Alteza sta querendo experimentar esse suco. Tenho certeza de que lhe far muito bem.
        ? V, Tomkins! ? disse o duque. ? Faa o que lady Deirdre lhe pediu.
        Depois que Tomkins saiu, Sacha disse:
        ?  capaz de o pessoal da cozinha estranhar um pouco. Sei que em geral no gostam de inovaes.
        ? Podem estranhar, mas faro tudo o que julgarem que  para meu bem-estar. Quanto a mim, sei que tudo o que  para o bem de quem quer que seja sempre tem 
um gosto horrvel.
        ? Est muito intolerante. Parece um menino mimado demais.
        Logo Tomkins voltou com o copo de suco em uma salva de prata, dizendo:
        ? A cozinheira disse que esse tipo de bebida  bem estranho, mas que o faz com prazer para Vossa Alteza.
        ? Estamos revolucionando a cozinha escocesa ? disse Sacha.
        ? Vou experimentar, mas se tiver o gosto que suspeito que tenha, dar-me-ei por satisfeito tomando uns dois goles.        
        O duque comeou a beber devagar, e continuou, sem reclamar. Quando havia bebido metade do lquido, disse:
        ? Devo confessar que  melhor o que pensei.
        ? No posso acreditar que no queira ser justo o bastante para admitir que gostou do suco ? disse Sacha.
        ? Est bem, gostei!
        Ela bateu palmas de contentamento. Voltou-se ento para Tomkins, dizendo:
        ? Por favor, Tomkins, providencie para que Sua Altza tome trs copos de suco, desse tamanho diariamente. Um copo de manh, um depois do almoo e um  noite.
        No caminho de volta, Tomkins pensava que, quando um homem no pode tomar um bom usque escocs, tudo devia ser horrvel.
        Sacha e o duque sorriam, felizes. Sentiam que no havia necessidade de palavras.
        

Captulo IV

        Sacha demorou muito para resolver que vestido iria usar naquela noite.
        Toda vez que abria o guarda-roupa de seu quarto e via o nmero excessivo de roupas que a prima lhe havia dado, custava a acreditar que aquilo tudo fosse 
realmente seu.
        Depois de passar anos seguidos usando os vestidos simples de algodo feitos pela bondosa Nanny e pensando em como era difcil comprar at mesmo as fitas 
para enfeit-los, sentia-se como uma princesa sada de um conto de fadas.
        Entretanto, pensava consigo mesma, estava vivendo uma fantasia. Tudo aquilo era um sonho que, ao despertar, j de volta a sua casa, queria conservar na memria 
e no corao, como o perodo mais encantador e sua via. S sentia no poder ver o duque novamente e jamais poder falar a ningum sobre aquela experincia maravilhosa, 
nem ao pai, seu maior confidente e amigo.
        Olhando os vestidos enfileirados, naquele verdadeiro arco-ris de cores, Sacha pensou no duque. Na noite anterior ele estava alegre,  parecia ter esquecido 
os problemas.
        Entusiasmado, pediu que ela lhe descrevesse o que estava vestindo e quis tocar o tecido e os enfeites, parecendo visualiz-la atravs da bandagem.
        Sacha  dissera ento:
        ? Agora, use a sua percepo e imagine a cor do vestido.
        ? No duvide de minha capacidade, senhora professora. Com seus ensinamentos, estou ficando muito esperto. Percebo tudo que acontece! Muito mais do que imagina!
        Sacha estremeceu.
        ? Como? Que quer dizer?
        ? Quando um sentido est prejudicado, os outros ficam mais alerta. Voc ajudou-me bastante a ser mais observador. No duvide: posso at adivinhar seus pensamentos...
        ? Acho que os pensamentos de uma pessoa s pertencem... a ela mesma ? respondeu ela, pouco  vontade.
        ? Por que diz isso? Que est querendo esconder de mim? De acordo com sua filosofia de vida, o que se pensa com firmeza torna-se realidade. Assim, o pensamento 
 muito importante, porque o que se pensa hoje ser realidade amanh.
        Sacha sorriu e disse:
        ? Est repetindo o que me ouviu ler para voc.
        ? E por que no? Ouvi com ateno e tenho pensado sobre o assunto. Cheguei  concluso de que tem sentido.
        Novamente, aquela sensao de estar pisando sobre uma camada de gelo fino invadiu Sacha. O livro em que havia sido escrito por seu pai, e aquele assunto 
era um de seus preferidos. Alm disso, sempre trocara muitas idias com o pai. Naturalmente, ela jamais se expressaria como Deirdre. Era melhor sair dali o quanto 
antes. Ento disse, com delicadeza:
        ? Estou certa de que deverei deix-lo agora. Tenho que trocar-me para o jantar. Seria indelicado de minha parte fazer Sua Alteza esperar por mim.
        ? H bastante tempo ainda! No sei por qu, mas tenho a impresso e que est querendo fugir de mim.
        Ela decidiu parecer vaidosa, bem ao estilo de Deirdre, e disse:
        ? Demoro um pouco para me arrumar. Talvez mais do que imagina... E Emily  muito cuidadosa e exigente...
        O duque no teve outro remdio seno render-se.
        Na manh daquele dia Sacha prometera a si mesma que conversaria com ele s sobre o que achasse interessante nos jornais e sobre as corridas de cavalos.
        Mas mesmo aqueles assuntos fizeram-na ficar confusa. O duque era muito observador, e a certa altura da conversa, perguntara-lhe:
        ? Como pode no s se interessar como estar to bem informada sobre os outros cavalos de meus colegas do Jockey Clube?
        ? Tenho que me interessar.  importante para papai se eles ganham ou perdem.
        Ao mencionar aquilo, ela pensava no pobre pastor, e no no rico marqus.
        ? No posso acreditar que seu pai, um homem rico, possa ficar com as finanas alteradas pelo fato de um cavalo ganhar ou perder.
        S ento Sacha compreendeu a tolice que cometera. Estava sendo difcil para ela manter-se vigilante e evitar cair em contradies. Afinal, jamais gostara 
de mentiras. Sempre quisera ser apenas ela mesma. Com esforo, pensou numa sada e disse, meio insegura:
        ? No  por causa de apostas, ou de dinheiro... Acontece que no conheo pessoa alguma que no... queira sempre vencer.
        ? Isso  verdade ? admitiu o duque. ? Mas, do modo como falou, pareceu-me que o resultado o Derby ou do Grande Prmio Nacional de Stteple-Chase tinha conseqncias 
em sua vida.
        Para desviar-lhe a ateno, Sacha disse depressa:
        ? Gostaria muito de ver o Grande Prmio e Stteple-Chase. S no gostaria de ver um cavalo cair ao saltar uma cerca, machucando-se.        
        ? Por que se importa tanto com cavalos?
        ? Gosto deles. Acho que no h nada mais excitante do que montar um belo cavalo de raa e sentir-se como que levada nas asas do vento.
        Ela pensava ento nas lies de equitao que tivera na casa o tio e em como adorava poder escolher os melhores cavalos e percorrer toda a propriedade, cavalgando.
        ? Bem quando nos casarmos, voc ter os melhores cavalos que existirem na face da Terra.
        ? Minha felicidade  tamanha que no encontro palavras para agradecer-lhe.
        Ao dizer isso ela pensou que tudo o que se desejava ardentemente acabaria acontecendo. Imaginava-se, ento, cavalgando pelos campos, com os cabelos ao vento, 
tendo o duque ao seu lado. Mas sabia que s mesmo um milagre a faria viver realmente aquele sonho. A voz dele interrompeu seus pensamentos:
        ? Quando nos conhecemos em Londres e nos primeiros encontros que tivemos, pensei que gostasse mesmo era de bailes, no de cavalgar.
        ? Acho ambos... igualmente... muito agradveis.
        ? Claro! Mas estou muito interessado em v-la cavalgar. Deve ser uma excelente amazona.
        Ela ficou novamente aflita por ter-se enlevado demais. Sabia que Deirdre no gostava de cavalgar e jamais saltara um obstculo, pois morria de medo. Uma 
vez ela dissera a Sacha:
        ? E se eu cair e machucar o rosto? No! Prefiro no me arriscar.
        Sacha pensava se Deirdre havia comentado com o duque sobre seu medo d cavalgar. Mas no devia ter tocado no assunto; ela no se exporia a tanto, sabendo 
que ele era um excelente cavaleiro. Alm disso, haviam estado muito pouco tempo juntos. Tinham se encontrado s em festas e bailes, e ele ficara encantado com a 
beleza de sua prima. Com certeza s haviam conversado sobre amenidades, e ele s quisera ser galante.        
        ? Logo farei trinta anos ? disse o duque ?, e minha famlia insiste em que me case logo.
        ? E isso no lhe agrada?
        ? Para ser franco, jamais gostei da idia. Mas se eu no tiver filhos, o ttulo de duque ir para um primo que j tem mais de sessenta anos e s tem filhas.
        Sacha pensou em como era aborrecido ter que ser casar s para ter um herdeiro. Ela via como seu tio sempre ficara preocupado por no ter um herdeiro. J 
seus pais estavam muitos felizes com ela. Para eles, no fazia diferena alguma terem um filho ou uma filha.
        ? Voc est muito quieta. Posso saber em que est pensando?
        ? Estava pensando que esses casamentos arranjados so uma coisa horrvel e nada natural.
        ? Mas isso ocorre em todas as famlias nobres, no mundo todo!
        ? Sei disso, mas no acho certo.
        ? Ento posso sentir-me no s orgulhoso, mas tambm muito feliz, pois estou percebendo que voc se casaria comigo mesmo que eu fosse um simples sr. Silchester, 
e no um duque.
        Sacha pensou em Deirdre. A prima ia renunciar ao seu amor por lorde Gerard para casar-se com o duque, s por causa do ttulo e da fortuna.
        ?  verdade ou no? ? insistiu ele.        
        ? Sim...  verdade... claro!
        O duque ps a pequena mo de Sacha entre as suas e a apertou ternamente.
        ? Do modo como respondeu, parece que no me ama, como acreditei que o fizesse. Ter mudado de opinio?
        ? No! Claro que no! ? ela disse, depressa. ? No quero que pense nisso agora. Deve pensar em outras coisas... amenidades... Lembre-se do que os mdicos 
lhe recomendaram.
        ? Isso no me aborrece. S queria que conformasse o que me disse em Londres, lembra-se? Naquele baile voc disse que gostava de mim pelo que eu era e no 
estava interessada em meu ttulo de nobreza, ou em minhas propriedades.
        ? No posso imaginar o que o teria levado a pensar que eu no sinta a mesma coisa aqui a seu lado, na Esccia.
        ? Na verdade, no conversamos muito em Londres. E agora que estamos os dois a ss, gostaria de saber o que sente sobre o amor e, lgico, o que sente a meu 
respeito.
        Sacha sorriu e disse:
        ? Sempre achei que as mulheres  que gostam de ouvir declaraes de amor.        
        ? No se trata declarao de amor. Quero que me diga o que acha de mim como... homem.
        ? Quer saber mesmo a verdade?
        ? Que pergunta tola! S quero a verdade!
        O duque segurava a mo de Sacha com firmeza, e ela sentia-se ligada a ele, captando toda a sua energia. Naquele momento, nem se preocupou em parecer Deirdre. 
Disse com toda a sinceridade:
        ? Vou dizer tudo o que sinto. A verdade! Acho-o um homem extremamente atraente, um esportista sem igual e um lder entre seus amigos. Mas penso tambm que 
poderia se aprimorar m muitos outros aspectos, e parece-me negligente nesse sentido.
        ? Gostaria de saber que aspectos so esses.
        ? Tem que descobrir por si mesmo.
        ? No aceito isso como resposta. Jamais algum me desafiou como voc o fez. Tem que explicar-me. Onde  que h essa falha?
        ? No disse isso...
        ? Mas deu a entender.
        ? Bem... talvez me ache impertinente, mas... perdoe-me. Compreenda-me...
        ? Agora j foi longe demais, No a deixarei enquanto no explicar direitinho o que quis dizer h pouco.
        ? Est certo. Pelas conversas que temos tido, vejo que  muito vivo e inteligente, e no entanto, como acontece com a maioria das pessoas, usa apenas um dcimo 
de seu crebro. E mesmo essa pequena parte  usada apenas em coisas materiais e agradveis, que no colaboram para o desenvolvimento de seu potencial.
        O duque soltara sua mo, e ela imaginou que ele devia estar atnito, pois acreditava que jamais algum lhe falara daquela forma. Talvez ele estivesse zangado, 
e Sacha disse:
        ? Sinto muito se... disse o que no devia.
        ? Por que diz isso? Pedi a verdade, e estou feliz em saber que  sincera. Gostei muito de ouvir o que disse. Estou apenas... surpreso, at mesmo pasmado. 
No sei como pode dizer isso. S ouvi coisas desse tipo em Oxford, nos meus tempos de colgio. Estou comeando a acreditar que a minha querida Deirdre , alm de 
uma linda jovem, uma pessoa que tem crebro, e acima de tudo, uma feiticeira!
        ? S posso pedir-lhe desculpas... Perdoe-me, no devia ter tocado nesse assunto, se no sou... entendida...
        ? Agora no est sendo sincera, nem verdadeira! Sei que notou que tudo o que me disse foi muito bom para minha mente e meu esprito, mas no para o meu ego.
        ? Jamais poderia ter dito essas coisas. No devia t-lo preocupado. Por favor... esquea tudo isso...
        ? Estou achando timo, pois abriu-me novos horizontes. Voc est certa! Tenho a desagradvel sensao de que desperdicei muito de meu tempo e de minhas capacidades 
em coisas tolas. S sinto dizer que no sei muito bem o que deva fazer ou em que deva ocupar-me.
        ? A resposta est em si mesmo. Medite no assunto. Pense nos que o cercam, nas pessoas que dependem de voc. Pense em seu esprito de liderana.
        Novamente Sacha achou que era melhor sair dali, deixando-o entregue aos seus pensamentos. Ento ergueu-se, dizendo:
        ? Preciso ir agora. Devo tomar ch com a duquesa.
        Apesar da insistncia do duque para que ficasse mais um pouco, ela saiu do quarto bem depressa.
        Enquanto caminhava pelo longo corredor, pensava em como fora tola em se deixar envolver numa conversa daquele tipo. Temia pelo seu relacionamento com o duque 
durante os prximos dias, e receava tambm haver causado dificuldades futuras para Deirdre.
        Ao mesmo tempo descobrira, em cada momento que estivera com ele, que era um homem maravilhoso, de alma nobre, embora exteriormente aparentasse estar interessado 
somente em esportes e em acontecimentos sociais. Pela educao que ela tivera, sentiu que, apesar e tudo, sua conscincia estava em paz. Toda pessoa deveria usar 
sua inteligncia e os meios de que dispunha para fins mais altrustas, e no s para o prprio conforto. Sim, ela estava certa de que havia uma fora que se irradiava 
do duque. Ele tinha uma grandeza interior que no lhe passara despercebida. Ela no queria mud-lo, mas, porque o admirava muito, queria que ele tivesse ideais mais 
elevados, que usasse seus dons, despertando-os e desenvolvendo-os. Queria para ele um grande destino, e correspondente  grandeza de seu carter e corao.
        Em seu quarto, Sacha ajeitou rapidamente os cabelos, olhou-se no espelho e, vendo que estava em ordem, foi encontrar-se com a duquesa.
        Encontrou-a na grande sala de estar, entretida com seu bordado. Ela deixou o trabalho de lado e levantou-se, dizendo: 
        ? Estava mesmo pensando em voc, e imaginava se viria tomar ch comigo. No queria, naturalmente, interromper voc e Talbot.
        ? Receio que ele j esteja achando a minha companhia um tanto excessiva.
        A duquesa sorriu.
        ? Estou certa de que isso no  verdade. Talbot transformou-se desde que voc chegou. Est radiante. E isso aumenta as chances de um completo restabelecimento.
        ? Sinceramente, espero que sim!
        ? Tomkins j me disse que notou como o duque est feliz desde sua vinda, Deirdre! Diz que voc tem sido o melhor dos remdios para Sua Alteza. E, segundo 
ele, at aquele estranho suco tem feito muito bem ao meu neto.
        Sacha sorriu e disse:
        ? Ele e a cozinheira estavam um tanto cticos quanto ao benefcio que um simples suco pode fazer aos olhos e  sade em geral. Sei que Sua Alteza ficar 
completamente recuperado.
        ?  isso que peo em minhas preces.
        Encaminharam-se para a sala ao lado, onde o ch seria servido.
        Depois do ch, foram aos aposentos do duque. Depois que a duquesa os deixou a ss, Sacha ficou s mais um pouco com ele. Ele lhe pediu que voltasse mais 
tarde, porque precisavam conversar.
        Sacha escolheu um vestido lindo, e desejou que ele pudesse ver como estava bonita. Ao mesmo tempo, pensou, seria desastroso se ele a visse. Lembrou-se ento 
de que, quando os mdicos removessem as bandagens, ela no castelo.
        Ela no lhe havia dito quando partiria, mas s tinha dois dias para ficar junto dele. Depois teria que ir embora, deixando-o para sempre. Sentia-se como 
se fosse Cinderela, esperando pelo soar das doze badaladas, que anunciariam o fim de todo um sonho e de todo aquele mundo maravilhoso de fantasia, junto a pessoas 
bondosas, a quem j estava querendo to bem. Desse sonho restariam apenas as roupas e os objetos que Deirdre lhe dera, mas que pouco significariam na vila simples 
onde morava.
        Sentiu uma dor no peito. Aproximou-se da janela e viu que o sol ponte tingia a paisagem com esses raios agonizantes e uma nvoa cinzenta erguia-se do pntano 
e do lago.
        Aquilo tudo era to lindo! Ela no podia ser ingrata. Ento, lembrou-se de agradecer a Deus a oportunidade que tivera de vir  Esccia e de haver vivido 
ali dias to maravilhosos e excitantes. Alm de todas as atenes, de todo o luxo e conforto, apreciara muito as conversas que tivera com o duque. E, no podia neg-lo, 
ele fora o homem mais interessante que j encontrara em toda a vida. O medo que sentira a princpio transformara-se em encantamento, e sempre que se separava do 
duque, ficava contando as horas e os minutos para voltar a v-lo.
        J perto da partida, queria tambm passear por todo o castelo, pelos jardins maravilhosos, admirar a vegetao, o lago e guardar para sempre na memria aquele 
mundo encantado.
        Precisava tambm agradecer a Deus por ningum haver suspeitado que ela era uma impostora.
        No poderia esquecer, ao voltar para casa, de contar a Deirdre sobre o que ela e o duque haviam conversado. Ao pensar nisso, estremeceu, pois sabia que a 
prima ia ficar furiosa com ela, pois achava suas idias e pontos de vista utpicos e excntricos. Deirdre sempre lhe dizia:
        ? Sou prtica e quero ter sucesso. Quero que reconheam  louvem minha beleza. Quero ser feliz aqui e agora. No me interesso pelo que possa acontecer num 
outro mundo, se nem sei ao menos se ele existe. E hei de casar-me com um homem muito rico e importante.
        Sacha sabia que Deirdre havia conseguido tudo o que ambicionara. Tinha, porm, certeza de que um coisa lhe faltava. Era algo que se sentia, uma espcie e 
xtase, algo que nos toca e que nos transporta. Sentia isso quando via um quadro bonito, quando ouvia uma msica e tambm quando rezava. Era maravilhoso sentir aquele 
enlevo, aquele arrebatamento, que poderia chamar, talvez, e amor.
        ? Est linda com esse traje, milady! ? Emily exclamou, interrompendo seus pensamentos.
        Ela olhava-se no espelho, enquanto Emily abotoava seu vestido. Perguntou, ento:
        ? Por que diz isso, Emily?
        ? Sempre achei esse vestido o mais lindo do guarda-roupa de lady Deirdre. No sei por que ela no gostava dele. S usou uma vez.        
        ? Por que ser?
        Ela achava impossvel algum no admirar um vestido lindo como aquele, feito de seda branca, com um amplo decote e em volta deste uma renda larga que caa 
sobre os ombros, toda rebordada em prata e prolas. At a ampla crinolina era arrematada com a mesma renda do decote.
        ? Acho que lady Deirdre no gostava do vestido, milady, porque queria que fosse bordado com outro tipo de pedras, dessas que brilham como diamantes. Ela 
sempre gostou de pedras brilhantes.
        ? Acho lindo assim como est, e fico feliz em ter ganho um vestido lindo e finssimo como este.
        Se Deirdre usara o vestido apenas uma vez, o mesmo iria acontecer com ela. Afinal, onde poderia usar um traje daqueles? Certamente no seria para jantar 
em casa com o pai.
        Antes de sair de seus aposentos para ir jantar, aproximou-se da janela. A lua ia surgindo, iluminando tudo e emprestando um toque de magia  paisagem. Sacha 
sentia que tambm ela estava envolta naquele encantamento.
        Depois, foi caminhando graciosamente pelo longo corredor, vendo por vezes sua imagem refletida nos espelhos altos e de molduras douradas que estavam dependurados 
nas paredes. Sentia-se perfeitamente integrada ao ambiente refinado do castelo, com sua rica moblia e as valiosas peas que o enfeitavam.
        Ao entrar na sala de estar, a duquesa, que estava vestindo um elegante traje de seda lils, disse:
        ? Como est linda, querida filha! Parece uma noiva! Gostaria de convidar amigos e parentes para conhec-la. Tenho certeza de que ficariam encantados com 
voc, querida! Mas Talbot pediu-me para manter o compromisso de vocs em segredo.
        ? Oh, por favor, nem pense nisso. Estou muito contente com a companhia de Vossa Alteza e do duque. Estou certa de que  melhor para o descanso de Sua Alteza 
ningum ficar sabendo que ele se feriu.
        ? Tem razo. Talbot detestaria qualquer publicidade nos jornais, o que certamente aconteceria.
        O mordomo anunciou o jantar. Depois de terminada a deliciosa refeio, ouviram um pouco e gaita de foles, tocada por um dos empregados da duquesa, que era 
msico.        
        Sacha achou muito excitante ouvir o tocador de gaita. Preferia ouvir msica a conversar com pessoas que no conhecia.
        A duquesa retirou-se para seus aposentos mais cedo, pois estava com dor de cabea. Ao sair, disse:
        ? Querida, d boa noite a Talbot por mim. E faa-lhe mais um pouco de companhia, pois precisam conhecer-se melhor. Talvez sua me no gostasse de saber que 
fui uma companhia um tanto negligente, mas no vamos dizer-lhe nada sobre isso.  um segredinho nosso. Agora v, minha filha.
        A duquesa beijou-a e Sacha foi aos aposentos do duque.
        Tomkins deixou-a entrar, recomendando:
        ? Receio ter que dizer-lhe, milady, que Sua Alteza est muito cansado e deve repousar bastante, tendo em vista a nova cirurgia.
        ? Sei disso, Tomkins, e fico contente por todo o seu cuidado. Mas s vim dizer boa-noite e Sua Alteza.        
        Tomkins abriu a segunda porta para ela.
        Ao entrar, viu que as cortinas estavam abertas. Ao lado da cama havia dois candelabros com as velas todas acesas. O duque estava sentado, encostado nos enormes 
travesseiros. Ao ouvir seus passos, perguntou:        
        ? Deirdre?
        ? Sim.
        ? Estava esperando por voc. Por que demorou tanto?
        ? Acabamos de jantar h poucos minutos. Ouvimos um pouco de gaita de foles. Achei simplesmente excitante!
        ? Gostou mesmo? Ou est dizendo isso para agradar-me? Sei que a maioria os saxes acha horrvel o som da gaita de foles.
        ? Agora est me ofendendo! ? disse Sacha.? Acho que a msica tocada pela gaita de foles  to bonita como a prpria Esccia. Ambas so estimulantes e inspiradoras.
        ? Acho que est me adulando ? disse o duque, sorrindo.
        ? No, no. Estou sendo sincera.
        ? As gaitas de foles a inspiram e estimulam! E voc faz o mesmo comigo!
        ? Esse  um elogio que me envaidece muito.
        ? Pensei que gostasse de ouvir elogios  sua beleza, como toda mulher. Linda como sei que , deve receber muitos galanteios.
        Sacha no respondeu, e o duque estendeu a mo dizendo:
        ? Chegue perto de mim. Quero toc-la novamente. Quero sentir o que est usando.
        Enquanto ele passava as mos pelo vestido, perguntou:
        ? De que cor ?
        ? Branco, bordado com fios de prata e prolas.
        ? Parece maravilhoso! Gostaria de poder v-la.
        ? Tenho certeza de que logo poder ? assegurou Sacha.
        Ele tocou o decote e o babado que caa sobre os ombros, dizendo:
        ? Sinto a renda e o bordado, os fios de prata, as pequenas prolas.
        Suas mos continuaram tateando e tocaram o pescoo e o rosto de Sacha.
        ? Sua pele  mais lisa e mais macia do que as prolas do bordado. E tem muito mais calor.
        Sacha estremeceu ao sentir seus dedos roarem-lhe a pele.
        Mal podia respirar.
        Ento ele a puxou para junto de si e disse:
        ? No lhe dei um beijo desde que chegou aqui, porque achei que com essa bandagem voc me sentiria repulsivo. Mas agora desejo beij-la como jamais beijei 
uma mulher, e sinto que tambm quer isso.
        Sacha estava sem foras, e a voz sumira-lhe da garganta.
        Seus lbios se tocaram e se uniram num longo e apaixonado beijo.
        O luar que penetrava pela janela era testemunha silenciosa do arrebatamento que os invadia. Sacha se entregara aos beijos e abraos cada vez mais insistentes 
e calorosos daquele homem encantador e viril. Seus braos fortes e o calor aqueles beijos enlouquecedores a transportavam com ele ao paraso. O duque a estreitara 
tanto em seus braos, que podia ouvir as batidas descontroladas de seu corao.
        O que Sacha sentia naquele momento era o que estivera tentando definir durante a tarde. Sim, aquilo era amor, o sentimento mais belo que poderia haver no 
mundo.
        Por uns momentos ainda ficaram abraados, e depois o duque disse
        ? Agora precisa ir, minha querida.
        Sacha parecia ter acordado de um sonho. Ergueu-se, sentindo o corpo todo tremer com a excitao que os beijos e as carcias do duque lhe haviam provocado.
        Ele tateou, procurando sua mo. Pegando-a, beijou-a e disse:
        ? Sonhe comigo. No deixarei de pensar em voc um s instante.
        Sacha quis dizer alguma coisa, mas no conseguiu.
        Como se estivesse em xtase, encaminhou-se at a porta. Passou por Tomkins sem dizer nada e s quando chegou a seu quarto encostou-se  porta, ps a mo 
no peito e conseguiu respirar bem. Ali, naquele momento, compreendeu que seu mundo havia mudado.
        Jamais em seus sonhos mais loucos sentira-se daquele jeito. Estava flutuando nas nuvens. O enlevo que sentia no podia ser descrito com palavras.
        Aquilo era amor! Amor to lindo e to perfeito, que vinha de Deus e que, contudo, estava centralizado na terra, em um homem. E esse homem ia casar-se com 
sua prima Deirdre!

Captulo V

        Sacha despertou. Sabia que havia no somente sonhado com o duque, como tambm pensado nele por muito tempo antes de adormecer.
        Todo o seu corpo estava desperto e vibrava, lembrando-se de seus beijos clidos e apaixonados. Agora que descobrira o que era o amor realmente, achava que 
era algo muito mais maravilhoso e extasiante do que havia imaginado. Sentia-se nas nuvens e, embora soubesse que seu amor por ele era impossvel, entregara-lhe seu 
corao e sua alma.
        Como posso ser to absurdamente tola, sabendo que ele pertence a Deirdre?, pensava consigo mesma.
        Agoniada, lembrou-se de que, para a prima, Talbot era apenas o duque, e no o homem que amava. Assim, temia que eles no fossem felizes.
        Saltou da cama, correu as cortinas e deixou o sol inundar o quarto. Olhou pela janela e viu que o dia estava maravilhoso. A luz do sol banhava o lago, que 
parecia um espelho, e a vegetao tinha reflexos dourados. Sacha estava embevecida, dominada pelo encanto da paisagem e sentindo o peito inundado de amor.
        Emily entrou no quarto e ficou surpresa ao v-la j de p.
        ? Acordou cedo, milady! Todos l embaixo comentavam como estava linda com aquele vestido, ontem a noite!
        Aquelas palavras fizeram-na lembrar-se do duque tocando seu vestido e depois seus ombros e o rosto. Estremeceu quela simples lembrana e um doce sentimento 
a invadiu, como se ainda estivesse sentindo as ternas carcias de Talbot.
        Vestiu-se ento com vagar, para que o resultado ficasse perfeito.
        Ao entrar na sala de jantar para tomar caf da manh, viu que a duquesa no estava l, como de costume.
        O mordomo esperava por ela e comeou a servi-la, dizendo que a duquesa tomaria o desjejum em seus aposentos.
        Sacha comparava mentalmente a fartura daquela mesa posta com esmero com a pobreza de sua casa. A refeio era composta de trutas, pescadas nos ribeires 
ali perto, bolinhos de salmo, ovos com cogumelos e presunto defumado, preparado no prprio castelo e ela achava uma delcia. Havia tambm sucos, ch, vrios tipos 
e pes e mingau.
        Sacha desceu e foi at o jardim. Andou por ali, sentindo a gostosa brisa da manh. Cada flor que via sugeria-lhe os diferentes sentimentos que nutria pelo 
duque: os mais delicados ? ternura, carinho e amor ? e os mais exuberantes ? paixo, arrebatamento e xtase.

        Passada uma hora, que mais lhe pareceu um sculo, voltou ao castelo, desejando ardentemente que ele estivesse pronto para receb-la.
        Ao entrar no castelo, a duquesa, que estava esperando por ela, disse:
        ? Bom dia, querida. Desculpe-me por no tomar o caf da manh com voc. Tenho uma coisa muito importante para lhe dizer.
        O modo como ela falava fez Sacha ficar apreensiva. Entraram numa sala que tinha imensas janelas ando para o jardim. Sobre a cornija da lareira havia um enorme 
quadro pintado a leo, um retrato da duquesa quando era jovem. Era uma pintura lindssima.
        Depois de se sentarem, a duquesa disse:
        ? Soube esta manh , por intermdio do mdico da nossa famlia, que dois especialistas chegaro amanh para ver Talbot.
        Sacha ficou tensa e perguntou:
        ? Dois especialistas?
        ? Sim, querida. Um deles  o cirurgio que vai operar Talbot para remover o ltimo estilhao de seu corpo, e o outro  o oftalmologista.
        ? Quer dizer que iro tirar as bandagens... amanh?
        ? Sim, e espero que nossas preces tenham sido atendidas e meu neto volte a enxergar novamente.
        Ao ver a consternao estampada no rosto de Sacha, a duquesa afirmou:
        ? No fique preocupada! J lhe disse que, como escocesa que sou, pressinto as coisas. Estou certa de que Talbot, forte como  e tendo sido tratado com todo 
o nosso carinho, ficar bom. Ah, estou muito contente, porque logo vocs podero anunciar o noivado! Felizmente voc parece gostar muito da Esccia. Tinha muito 
medo de que meu neto se casasse com uma dessas jovens da sociedade londrina que no querem sair da capital.  um alvio para mim saber que estaro sempre vindo visitar-me 
aqui no castelo. Talbot morreria se tivesse que se afastar por muito tempo daqui.
        Foi fcil para Sacha dizer-lhe que encontrava muito mais prazer na vida do campos do que em Londres, pois era o que realmente ocorria.
        A duquesa, radiante, continuou:
        ? Vou dizer-lhe um segredo que ainda no contei nem a meu neto: deixo, em meu testamento, o castelo e todas as outras propriedades que possuo para Talbot. 
Ele  meu neto favorito, e sei que vai passar a maior parte do ano aqui depois que se casar. Sei tambm que vai cuidar do meu povo como se fosse escocs como eu.
        ? Tenho certeza de que ir. E ficar emocionado ao ver a confiana que deposita nele.
        Para Sacha era um tormento conversar sobre aquele assunto, sabendo que em breve partiria para nunca mais voltar e que nem ao menos teria a alegria de aprender 
a pescar salmo com o duque, conforme ele lhe prometera.
        O que mais a magoava, porm, era saber que Deirdre no o acompanharia  Esccia e no seria uma boa companheira para ele. Oh, como ela desejava que aquele 
homem, to belo de corpo e alma, fosse feliz!
        ? Muitas jovens tentaram conquistar Talbot! ? continuou a duquesa ?, o que no  de admirar, pois ele  um belo homem. Mas foi por voc e sua beleza que 
ele ficou realmente enfeitiado. Confesso que, quando soube que estava enamorado de uma beldade da sociedade londrina, fiquei aborrecida, pois queria para meu neto 
no apenas uma mulher bonita. Sabia que ele s seria feliz tendo a seu lado uma mulher bondosa, sbia e prudente,  que o estimulasse a ajudar outras pessoas. Mas 
desde que a conheci, percebi que no poderia ter havido melhor escolha. Voc rene todas as qualidades que eu desejava para a esposa de meu neto. Desde que veio 
para c, notei que at o modo de Talbot pensar e de encarar a vida mudou.
        ? Como? Em que sentido? ? perguntou Sacha, pois sabia que tudo o que havia acontecido com o duque ficara entre eles apenas.
        A duquesa sorriu e disse:
        ? Acho que soube por instinto. Porm, quando notei que lia para Talbot trechos daquele livro maravilhoso chamado  luz da Grcia, soube que voc era uma 
pessoa diferente, uma vez que se interessava por esse tipo de leitura. Tenho esse livro. Considero-o no s muito bem escrito, como profundo, construtivo e cheio 
de lies de otimismo.
        Sacha ficou radiante com os elogios feitos ao livro, mas no podia dizer que o autor era seu pai. Ao mesmo tempo, pensou em outra discrepncia entre ela 
e Deirdre, que detestava qualquer livro mais profundo.
        A duquesa continou:
        ? Sempre tive vontade de conhecer o reverendo Marvyn Waverley, e cheguei mesmo a pensar em escrever-lhe, mas achei que talvez fosse impertinncia de minha 
parte incomodar um escritor como ele.
        ? Creio que todo escritor ficaria muito orgulhoso em saber que... Vossa Alteza se interessou por um livro de sua autoria ? disse Sacha com cuidado, escolhendo 
as palavras.
        ? Tenho outro livro desse mesmo autor. E talvez algum dia escreva a ele dizendo como aprecio seus livros. Espero que continue escrevendo.
        Sacha sorria para a duquesa, mas preferiu no dizer nada, para no se traia. A duquesa continuou:
        ? Eu devia ter dado  luz da Grcia a Talbot para que o lesse. Falhei nisso. Mas, acredite,  um livro que tenho sempre comigo e em que sempre encontro um 
ensinamento novo e uma bela lio de vida. Sinceramente, achei que as pessoas mais jovens talvez no se interessassem por este tipo de literatura.
        ? Como v, sou jovem, e sinto a mesma coisa quando o leio. Trago-o sempre comigo.
        ? Vejo que temos duas coisas em comum, minha filha: o grande amor por meu querido neto e os mesmos interesses literrios. E agora, gostaria de dizer-lhe 
que, como estou muito velha, sei que logo no estarei mais entre vocs. Quero que saiba que sua vinda a este castelo foi para mim a maior das alegrias! E,como tive 
a felicidade de conhec-la, sei que posso partir tranqila, pois meu neto estar nas mos de uma pessoa maravilhosa! Se eu tivesse que escolher a esposa certa para 
Talbot, pode crer que escolheria uma jovem como voc.
        Sacha estava emocionadssima. O modo como a duquesa falou e seu sentimento de culpa fizeram vir lgrimas a seus olhos. Sentiu uma forte dor no peito e a 
garganta apertaa. Afastou-se um pouco e foi at a janela, mas no conseguia ver nada  sua frente, a no ser um futuro sombrio e desolador sem o duque.
        Ento, voltou-se para a duquesa e disse com a voz dbil:
        ? Suponha que eu... desaponte o duque?
        A velha senhora sorriu.
        ? Toda pessoa que est apaixonada acha que no  suficientemente boa para aquele a quem entregou o corao. Sei que no desapontar Talbot, nem ele a voc. 
Vejo claramente que foram feitos um para o outro. O futuro de ambos ser radioso!
        Sacha teve vontade de gritar-lhe que estava enganada, mas disse apenas:
        ? Agradeo muito as bondosas palavras que Vossa Alteza dirigiu a mim, e tambm toa a confiana que me dedica. S posso dizer-lhe que... jamais me esquecerei 
de sua bondade.
        A voz de Sacha saiu entrecortada pela emoo, e a duquesa consolou-a, dizendo:
        ? Querida criana, sei que est preocupada com Talbot! No fique assim! Tem que acreditar que tudo ficar bem. Ambas sabemos que, em toda dificuldade, o 
importante  o desejo de vencer.
        ? Sim... farei o melhor que puder.
        
        Meia hora mais tarde, Sacha foi avisada que o duque esperava por ela.
        Em alguns minutos estava diante de Tomkins, que, antes de anunci-la, disse em voz baixa:
        ? Sua Alteza j sabe que os mdicos estaro aqui amanh, e no est nada entusiasmado com a notcia.
        ? Posso compreender o motivo... Mas eu sei que ele voltar a enxergar.
        ? Tente anim-lo, milady. Estou com Sua Alteza h anos, e inclusive o acompanhei na guerra. Sei que  corajoso e forte como um leo, mas a cegueira  uma 
coisa completamente diferente!
        ? Compreendo. Fique certo de que ajudarei em tudo o que puder. Ele ser muito bem sucedido.
        ? Diga-lhe, milady, que no se importa se ele enxergar ou no, e que o amar de qualquer forma.
        Sacha sentiu a lealdade do bom Tomkins, e sabia que ele sofria pelo duque e faria tudo o que pudesse para deix-lo feliz. Ento, tranqilizou-o:
        ? Prometo que ajudarei o duque e acalmarei todos seus temores.
        Ao entrar no quarto, viu Talbot sentado na cama, e, apesar das bandagens, ele pareceu-lhe mais bonito do que nunca. Assim que aproximou-se da cama, ele disse:
        ? J sabe que os mdicos viro amanh, no?
        ? Sim, sua av contou-me. Espero que tenha ficado contente. No h nada pior do que... ficar esperando e se preocupando.
        ? No estou me preocupando! ? disse ele, nervoso.
        Sacha aproximou-se mais, e ele segurou-lhe a mo apertando-a com tanta firmeza, que chegou a doer. Ento, com uma voz que nem parecia a dele, disse:
        ? Estou com medo!
        ? No, no deve sentir-se assim, meu querido! A operao ser muito bm sucedida! No h o que temer!
        ? No tenho medo da dor, nem da operao. Tenho medo de perd-la!
        Sacha prendeu a respirao. Um tremor que no pde evitar a invadiu. Controlando-se, respondeu:
        ? No me perder! Sei, bem no fundo do meu corao, que... haveremos de estar sempre juntos... mesmo que no volte a enxergar... Para mim no far diferena!
        ? Tem certeza de que me aceita, mesmo se, desgraadamente, eu ficar... cego?
        ? Sempre o amarei! Pode ter certeza disso.
        Ela estava dizendo a verdade, mas sabia que Deirdre jamais se casaria com o duque se ele no recobrasse a viso.
        Como se adivinhasse seus pensamentos, ele continuou:
        ? Jura que se casar comigo se, ao tirarem as bandagens, eu estiver cego? Voc se sujeitaria a guiar-me como um co, pelo resto de sua vida?
        Sua voz tinha um tom to doloroso, que deixou Sacha consternada. Ela disse bem depressa:
        ? Juro que no o abandonarei. Juro que, mesmo que fique cego, eu o desposarei e continuarei amando-o. Sempre cuidarei de voc com muito carinho.
        O duque suspirou. Depois disse:        
        ? Se  isso mesmo que sente por mim e se est realmente disposta a me aceitar como marido, qualquer que seja o resultado depois de removidas as bandagens, 
tenho uma sugesto a fazer-lhe.
        ? E... qual ?
        ? Pensei nisso depois que nos separamos ontem  noite. Mas, na verdade, estou receoso de lhe falar a esse respeito.
        ? No h o que recear...
        ? Acredito que me ame, realmente. Por isso, quero perguntar-lhe se aceita casar-se comigo antes de eu ser operado amanh e antes de as bandagens serem removidas.
        Os olhos dela se arregalaram. Olhou-o com espanto e pde apenas articular:
        ? Casar... antes da... operao?
        Ele sorriu e explicou:
        ? Aqui na Esccia, h um modo muito fcil de se realizar legalmente um casamento, em segredo.
        ? Em... segredo?
        ? Sente-se aqui na cama, ao meu lado. Vou explicar-lhe. Depois que ficar a par de meu plano, dir se concorda com ele ou no.
        Antes de comear, levou as mos de Sacha aos lbios. Ela sentia-se novamente vivendo um sonho, do qual no queria acordar jamais.
        ? Agora sei que me ama realmente ? disse o duque. ? Quero ardentemente que aceite meu plano, porque, se eu morrer na mesa de operaes...
        ? Que horror! ? Sacha gritou. ? No diga isso!
        ? Nunca se sabe, querida. O pedao de metal que deve ser removido est perto do corao. Por isso  que preciso ficar em repouso. A regio estava muito inflamada 
tambm.
        ? Meu Deus! Por que no me disse antes?
        ? No quis preocup-la. Agora vou falar sobre meu plano. J fiz meu testamento, deixando minhas posses pessoais, menos as propriedades e terras que devo 
legar ao prximo duque, para minha esposa.
        ? Esquea isso, por Deus! Como poderia querer receber algum benefcio se... estivesse... morto?
        ? Sabia que diria isso. Mas mesmo que eu morra, o que espero, resta a possibilidade de ficar cego. E voc sabe, eu s suportaria essa desventura com voc 
a meu lado, dando-me apoio e conforto, sendo a luz dos meus olhos.        
        ? Voc sabe que no o deixarei. Sabe que o amo... muito!
        ? Quero ter certeza absoluta. Por isso quero que se case comigo secretamente, sob as leis escocesas, e ningum jamais ficar sabendo disso, a menos que eu 
morra.
        ? No compreendo ? disse sacha novamente.        
        ? Vou explicar. Pedi a um amigo que venha aqui esta tarde. Trata-se do juiz supremo do condado. Quando ele chegar, a nica coisa que ter a dizer-lhe  que 
aceita casar-se comigo, e diante dele, como autoridade, estaremos casados. Na Esccia, esse tipo de casamento chama-se casamento por consentimento ou casamento 
irregular, mas  perfeitamente vlido e legal.
        Sacha ouviu tudo com a maior ateno, mas parecia que sua cabea estava oca, e s de pensar na palavra casamento, no conseguia raciocinar direto.
        O duque conclui sua explicao:
        ? Isso quer dizer, minha querida, que, acontea o que acontecer, amanh voc ser minha esposa.
        Sacha estava atnita, e no conseguia articular uma palavra.
        Casar-se com o duque era a coisa mais maravilhosa que lhe poderia acontecer. Mas, ali, ela no era Sacha! Para todos, era Deirdre! Como explicar a ele? Ao 
mesmo tempo, como poderia recusar o pedido de casamento?
        Talbot estranhou aquele silncio prolongado e perguntou, ansioso:
        ? Estou pedindo demais? Como j lhe disse, ser um casamento sigiloso. Ningum ficar sabendo. Depois nos casaremos na igreja. Convidaremos ento os parentes 
e amigos, voc se vestir de noiva, ter uma dzia de damas de honra, haver msica e canto coral e a cerimnia ser realizada pelo reverendo. Que acha ento, minha 
querida?
        Sacha sabia que precisava dizer alguma coisa, e perguntou, quase sem voz:
        ? Tem certeza de que ser um casamento... secreto?
        ? S o juiz, voc e eu saberemos disso. Sei que est pensando nos que seus pais diriam. Mas se eu... ficar bom, irei para o sul, oficializaremos nosso noivado 
e nos casaremos logo em seguida, com toda pompa que desejar.
        ? No penso nisso. Mas talvez...  que... talvez seja errado nos casarmos assim... secretamente.
        ? S poder ser errado se voc no me amar o suficiente. Se me ama, mesmo sabendo que ficarei cego, isso ser uma prova de amor. Mas, se est insegura de 
seus sentimentos, ou talvez arrependida do que me disse antes, deixo-a livre.
        A amargura que havia na voz dele fez Sacha ficar penalizada. Ento ela gritou:
        ? No! No  isso! Sabe que amo voc com toda a minha alma!  que  um grande passo... Talvez eu esteja assustada. Tudo isso parece mais uma...aventura.
        ? Est assustada? Considera isso uma aventura? No acredito que possa pensar assim. At agora tem-se revelado uma pessoa firme, de pensamento claro e objetivo. 
Uma pessoa que me ensinou tanto sobre a vida no pode estar assustada com algo to simples. Estou usando minha intuio e minha inteligncia para no vir a... perd-la.
        Perd-la era mais do que inevitvel, pensou Sacha, angustiada.
        De repente, como se sua cabea se desanuviasse, deixando-a perfeitamente dona de suas emoes,  Sacha teve a certeza de que no poderia desapontar o duque. 
Amava-o demais e precisava deix-lo tranqilo, e, mais que isso, feliz. Agora que conseguia raciocinar com mais clareza, no havia o que temer. Ela contaria tudo 
a Deirdre, e depois que o duque estivesse bom, celebrariam o casamento com todo o luxo e ostentao, de acordo com o gosto de Deirdre.
        Como se estivesse saltando de um alto rochedo para o mar, Sacha disse:
        ? Se  isso o que quer de mim... aceito casar-me com voc.
        ?  realmente o que quer?
        ? Sim!  o que eu quero!
        ? Tinha certeza de que me amava. Quando nos beijamos a noite passada, isso ficou claro para mim. Juro, minha querida, que jamais ir arrepender-se. Farei 
de voc a mulher mais feliz do mundo!
        Dizendo isso, abraou-a e beijou-a com ardor. Ela sentiu-se novamente transportada para um muno etreo, feito de sonho e encantamento. Ficaram elevados um 
com o outro, naquela doce entrega que s os verdadeiros amantes podem experimentar.
        Uma batida  porta tirou os dois enamorados do xtase em que se achavam e f-los voltar  realidade.
        ? Entre! ? disse o duque.
        Era Tomkins, que disse:        
        ? Sinto interromper Vossa Alteza. Trouxe os jornais.
        ? Pode deix-los nessa mesinha. Obrigado.
        ? E tambm quero anunciar o dr. Macpherson, que acaba de chegar.
        Sacha levantou-se para sair.
        ? Vou deix-lo a ss com o mdico.
        ? Volte s quatro. O juiz estar aqui ? disse o duque em voz baixa ? Espero que no mude de idia...
        ? Pode ter certeza de que estarei s quatro.
        Assim que Sacha saiu, entrou o dr. Macpherson. No hall, o mdico disse.
        ? A senhorita deve ser lady Deirdre Lang. A duquesa disse-me que sua presena aqui foi o melhor remdio para o restabelecimento de nosso paciente.
        ? Obrigada ? disse ela simplesmente. ? A cirurgia de amanh ser muito arriscada?
        ? Estou muito confiante. Creio que correr tudo muito bem, dada as excelentes condies fsicas e o entusiasmo de Sua Alteza.
        ? E quanto.. aos olhos?
        ? No posso adiantar nada sobre o assunto. No  minha especialidade. Logo teremos o oftalmologista conosco. Trata-se de sir Colin Knowles, que  a maior 
autoridade do pas em sua especialidade.
        ? As bandagens sero removidas depois da operao?
        ? Sim. Mas os dois mdicos estaro juntos. Pode ficar tranqila. Estamos todos otimistas.
        ? Obrigada por dizer tudo isso. Posso ficar mais confiante.
        Sacha saiu dali, rezando para no encontrar a duquesa. Queria ir para seu quarto e pr as idias em ordem. Nunca pensara que seu mundo, at ento sem grandes 
perspectivas, fosse transformar-se to de repente. Era tudo to confuso para ela... Como poderia casar-se com o duque? Ela era uma impostora, e ia assumir um compromisso 
legal, diante de um juiz.
        Sua cabea doa, e durante o ia ela ficou calada, tentando no demonstrar  duquesa como estava transtornada. Felizmente a velha senhora tambm estava silenciosa 
durante o almoo e deve tr compreendido a tenso e Sacha, atribuindo-a  operao.
        As horas se passavam, impecveis, e logo chegaria o momento em que Sacha compareceria diante do juiz. O que mais a atormentava era o fato de ter que mentir, 
fazendo do casamento, que considerava sagrado, uma farsa.
        Entretanto, sabia que, quando afirmasse ao juiz que aceitava o duque como marido, iria diz-lo com muita veemncia, pois amava-o com todas as foras de seu 
corao.

        Pouco antes das quatro, Sacha foi aos aposentos do duque. Embora no pudesse ser vista por ele, vestiu-se com to o cuidado, e Emily deixou seus cabelos 
um primor. Olhando-se ao espelho, viu que no poderia estar melhor. Estava mesmo elegante e linda, como convinha a uma noiva.
        Aproximou-se da cama dele e disse suavemente.
        ? Aqui estou.
        Tomando-lhe a mo e levando-a aos lbios, ele disse:
        ? Estive esse tempo todo ansioso para que chegasse este momento. Ainda me ama, querida?
        ? Mais que tudo na vida.
        Percebendo que Sacha estava trmula, ele tentou acalm-la:
        ? Parece que est assustada, meu amor! No h razo para isso. Este ser um segredo s nosso, e, acontea o que acontecer no futuro sempre a amarei e protegerei. 
De hoje em diante, ser s minha, e jamais nos separaremos.
        Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, Tomkins bateu  porta e, depois e entrar, anunciou:
        ? O juiz supremo do condado veio fazer-lhe uma visita, Alteza.
        Sacha viu um homem alto e bonito com as tmporas j grisalhas, aproximar-se deles.        ? Que andou fazendo, Talbot, meu bom amigo? A duquesa disse-me 
que sofreu um acidente! Por que no me avisaram antes?
        ? Ningum gosta de espalhar pelos quatro cantos as tolices que comete! ? disse Talbot, sorrindo. ? J sabe como foi o acidente, no?
        ? Sim. A duquesa me contou. Saiba que sinto muito, realmente.
        ? Quero que conhea minha futura esposa. J falei a ela a seu respeito.
        ? Estou encantado em conhec-la, lady Deirdre, ? disse o juiz, estendendo-lhe a mo. ? A duquesa estava me dizendo que tem contribudo para o restabelecimento 
do duque.
        Antes que Sacha pudesse responder, Talbot disse:
        ? Agora oua, Ian. Quero que me ajude. Primeiro quero que testemunhe que a assinatura deste testamento que ditei para a secretria de vov  correta e legal. 
Depois quero que nos uma em matrimnio. Minha noiva e eu queremos nos casar secretamente, perante voc, segundo permite a lei escocesa.
        ? Quer dizer casamento por consentimento?
        ? Exatamente. Se alguma coisa acontecer comigo amanh, ao ser operado, quero que faa cumprir meu testamento da maneira usual.
        ? No resta dvida que farei como me pede. S estou surpreso.
        ? Sei que est pensando que sou saxo. Mas no se esquea de que, pelo lado de vov, tenho um quarto de sangue escocs. E  esse lado escocs que pede a 
um amigo inteiramente escocs que faa o que lhe peo.
        O juiz sorriu, dizendo:
        ? S posso concordar.
        ? Muito bem ? disse o duque.
        Tirou seu anel de sinete, segurou a mo trmula de Sacha e ps o anel no seu dedo mdio. Depois disse, com voz solene:
        ? Desejo apresentar-lhe, Ian Gordon, como juiz supremo deste condado, minha esposa, a duquesa de Silchester!
        O juiz olhou para Sacha, e ela disse:
        ? Desejo apresentar-lhe, como juiz supremo deste condado, meu marido, o duque de Silchester!
        O juiz cobriu as mos dos noivos com a sua e disse:
        ? De acordo com as leis da Esccia, eu os declaro marido e mulher. Que Deus abenoe e os conserve unidos para sempre!
        Embora a cerimnia fosse muito simples, Sacha e Talbot acharam-na comovente.
        Delicadamente, o duque beijou a jovem esposa.
        Depois, voltou-se para o amigo e disse:
        ? Muito obrigado, Ian. Agora, minha esposa vai deixar-nos a ss para que possamos tratar o testamento, ento falaremos sobre a prxima temporada de caa 
e de pesca...
        Sacha deixou os aposentos do duque, muito feliz, pois notou pela voz dele que estava muito alegre.
        ? Sua esposa  maravilhosa, Talbot! Nunca vi uma jovem to linda quanto ela. No admira que queira prend-la.
        Ele s pde rir com o cumprimento do amigo.
        Enquanto ia andando pelo corredor, Sacha sentia o rosto ardendo. Pensava que talvez mulher alguma jamais tivesse sentido o que ela estava sentindo naquele 
momento: dois sentimentos opostos ao mesmo tempo ? a alegria de ter provado seu amor por Talbot e ser considerada sua esposa, apesar de ser apenas por breves momentos, 
e a tristeza de saber que estava prestes a perd-lo para sempre!


Captulo VI

        O juiz ficou com o duque at a hora do jantar.
        Enquanto Talbot se preparava para o jantar, Sacha pensava se veria Talbot naquela noite. Desejava muito faz-lo, pois ele seria operado na manh seguinte.
        Ela nem sabia o que deveria dizer-lhe, mas achava que poderia confort-lo e infundir nele o otimismo necessrio para aceitar com calma o que teria, forosamente, 
que enfrentar.
        Todos os sentimentos descontrolados que tivera horas antes haviam desaparecido, e ela sentia-se calma e feliz.
        Eu amo Talbot!, pensou Sacha. Ao mesmo tempo imaginava o que seu pai diria se soubesse que havia se casado com o duque secretamente e que enganara a todos, 
fazendo-se passar por Deirdre. Naturalmente, ele ficaria muito chocado e desaprovaria seu comportamento.
        De repente, Sacha viu-se conversando mentalmente com sua me, pois sabia que ela a compreenderia.
        No poderia comprometer a operao e Talbot, mame! Tenho certeza de que o tirei do estado depressivo em que se encontrava. Fiz isso por amor a ele, mame, 
e no espero nada em troca. S desejo que ele seja feliz!
        ? Que deseja vestir, milady? ? perguntou Emily.
        ? Pode escolher o que achar mais bonito, Emily. Todos os vestidos so lindos!
        Sacha afastou-se do guarda-roupa, pois naquele momento pensava que Talbot jamais a veria em um daqueles vestidos, e que, na prxima vez em que ele e sua 
esposa estivessem juntos, eles estariam inexoravelmente afastados um do outro.
        Com uma pontada no corao, imaginou Deirdre e o duque danando num salo maravilhoso, sob candelabros de cristal, enquanto ele se deslumbrava com a beleza 
da prima, como tantos homens j haviam feito.        
        Por uns instantes, Sacha sentiu inveja de Deirdre. Mas logo lembrou-se de que tinha que ficar-lhe agradecida por proporcionar-lhe dias to maravilhosos na 
Esccia e por ter conhecido o homem mais encantador da face da Terra, que s pensara existir em sonhos. Havia sido beijada por ele! Ah, o que sentiu quando ele a 
beijara! Havia aquelas emoes e estremecia de felicidade e de gozo.
        Fui muito feliz! Estes momentos com Talbot foram to estonteamente exultantes que no posso pedir mais, meu Deus! seu corpo, entretanto, ansiava pelas 
carcias de Talbot e por seus beijos apaixonados.
        ? Eis aqui, milady ? disse Emily. ? Use este vestido. Vai ficar linda como a brisa da primavera.
        Sacha voltou  pequenez daquelas coisas fteis e vs.
        ? Est potica, Emily ? observou ela.
        Para sua surpresa, a criada corou e disse:
        ? Estou pensando em meu namorado, milady.
        ? Ento est namorando? Pretendem casar-se logo?
        ? No sabemos ainda. Estamos economizando. Meu namorado sempre escreve poemas, milady. Considero-os muito bonitos.
        ? Desejo que sejam muito felizes, Emily.
        ? Obrigado. Mas tenho que ser muito cuidadosa, porque, na Casa Grande, Hanna me vigia o tempo todo e no me deixa sair para namorar.
        ? Convm ser cautelosa mesmo. Mas quando puderem se casar, tenho certeza de que meu tio dar seu consentimento. Fico muito contente em saber que tem algum 
que a ama e que se preocupa com voc.
        ? Quando a gente ama, tudo  diferente, milady.
        Ah, como Sacha sabia que o amor transforma a vida!
        O juiz havia partido, e quando sacha entrou na sala de estar, a duquesa estava sozinha. Conversaram sobre a operao de Talbot, que seria feita no prprio 
castelo. Um dos dormitrios havia sido preparado para esse fim.
        Todo o equipamento cirrgico viera de Edimburgo. Tomkins auxiliaria os mdicos, como enfermeiro.
        ?  uma pena que eu tenha que partir depois de amanh ? disse Sacha.
        ? Tem mesmo que ir to depressa, minha filha? ?  perguntou a duquesa, triste.
        ? Est tudo arranjado para algum ir esperar-me em Londres e levar-me para a outra estao, a fim de tomar o trem para casa.  que eu no sabia desta outra 
operao quando vim para c.
        ? Compreendo ? disse a duquesa. ? Seus pais a esperam. Mas, ao mesmo tempo, sei que Talbot ficar aborrecido.
        ? Ainda no lhe disse que vou partir. Acho que no seria conveniente preocup-lo antes da cirurgia.
        ? No, no! Alm de faz-lo sofrer, poderia ser perigoso.
        Enquanto se dirigiam ao quarto do duque, a duquesa manteve-se calada. Sacha sabia que ela estava desapontada, mas nada podia fazer. Se dependesse dela, ficaria 
no castelo para sempre.
        Ao entrarem nos aposentos de Talbot, Tomkins, muito cuidadoso com seu paciente, como sempre, disse:
        ? Alteza, devo lembr-la de que o duque deve repousar muito e no dormir tarde.        ? Obrigada, Tomkins, mas s viemos dar boa-noite a meu neto. No nos 
demoraremos.
        Ele abriu a porta do quarto e as duas entraram.
        O duque parecia estar de timo humor e muito feliz. Seu rosto estava calmo e ele sorria.
        ? Como est se sentindo, meu menino? ? perguntou a duquesa.
        ? Muito feliz!
        ? Estou contente em v-lo assim. Viemos apenas dar-lhe boa-noite; Tomkins insiste em que deve dormir cedo.
        ? Tomkins tem razo, vov.
        Ela beijou o neto no rosto, dizendo:
        ? Boa noite e Deus o abenoe! Quando o juiz saiu, disse-me que espera que fique bom logo, para irem pescar salmo.
        ? J fizemos at uma aposta para ver quem pega mais peixes.
        ? Acho que est querendo lesar Ian Gordon. Nunca soube que ele levasse vantagem sobre voc, em se tratando de pescar salmo ? disse a duquesa, sorrindo.
        ? Sempre h uma primeira vez...
        Ela saiu, e da porta, disse a Sacha:
        ? S tem dois minutos, Deirdre! No deixemos Tomkins zangado.
        Quando a porta se fechou, Talbot disse:
        ? Oua, querida, sei que vov e Tomkins fariam o maior barulho se ficasse comigo agora. Mas tenho muitas coisas para lhe dizer. Ponha sua roupa de dormir 
e venha ver-me daqui a uma hora e meia, quando tudo estiver quieto.
        ? H alguma coisa que quer que... eu faa... para voc?
        ? Se estiver como medo, irei at seu quarto!
        ? Claro que no! Est louco? Pode machucar-se!
        Sacha viu que ele estava rindo, e s dissera aquilo para ela se decidir rapidamente.
        ? Ento, vir? ? insistiu.
        ? Se quer assim... Mas... e Tomkins? E sua av?
        ? Se for cuidadosa, ningum saber. O quarto de vov  longe do meu, e ela se recolhe cedo. Tomkins, apesar e dormir no quarto ao lado, no vai querer me 
pertubar pensando que peguei no sono.
        ? Est bem... Virei. ? A voz de Sacha era trmula.
        Talbot beijou-lhe a mo.        
        ? No me deixe esperando muito tempo. Sabe que no far bem  minha sade.
        ? Est fazendo chantagem!
        ? Estou mesmo precisando falar muito com voc. E no estou brincando ao dizer que, se no vier, ficarei aborrecido e serei mesmo forado a ir ao seu encontro.
        ? Vejo que no est nada comportado esta noite. Mas virei por uns instantes apenas, se isso vai faz-lo feliz!
        ? Era isso o que eu queria ouvi-la dizer.
        Sacha saiu do quarto e encontrou Tomkins esperando-a no hall.
        ? Pode ir descansada, milady, o duque ter uma noite muito tranqila.
        ? Tenho certeza disso. Sei que ele no poderia estar em melhores mos, e sou-lhe muito grata.        
        Ao chegar em seus aposentos, Sacha trocou de roupa, ajudada por Emily.
        ? Voc est lembrada de que partiremos depois de amanh, no? ? disse Sacha.
        ? Claro, milady! Amanh arrumarei a bagagem, no se preocupe. Gostei muito de vir conhecer a Esccia, milady, mas estou feliz em voltar para casa.
        ? E feliz porque vai ver o namorado, suponho.
        ? Devo dizer que foi com muito gosto que cuidei da senhorita. Mas, chegando em casa, terei que enfrentar a srta. Hanna, que me faz correr o dia inteiro como 
seu  fosse uma lebre, e lady Deridre, que no  bondosa como a senhorita, no.
        Sacha no quis falar nada sobre a prima, pois no seria delicada e disse apenas:
        ?  bom mesmo voltar para casa, no importa como tenham sido agradveis os dias passados fora.
        Vestiu uma linda camisola e um neglig de seda azul, enfeitados com fina renda. Enquanto escovava vigorosamente os cabelos, pensava que a vida em sua pequena 
casa, na vila, no mais seria a mesma, pois seu corao ficaria na Esccia, com Talbot.
        Depois que Emily saiu, ela ajoelhou-se para fazer as oraes da noite. Pediu a Deus pela sade do duque e agradeceu por hav-lo conhecido.
        Sobre a cornija da lareira havia um grande relgio. Sacha ficou olhando para ele, achando que o tempo estava passando muito devagar. Pensava que aquela seria 
a ltima vez em que veria seu querido Talbot, e ansiava pelos beijos que, com certeza, lhe daria.
        Quando achou que estava na hora de ir ao quarto delem saiu, muito devagar e com todo o cuidado, pelo corredor. O castelo todo estava em silncio. Sacha pde 
enxergar o caminho, porque ainda havia algumas velas ardendo nas arandelas.
        A portado hall, nos aposentos do duque, estava apenas encostada e ela foi entrando, tateando. Abriu a outra porta e, afinal, encontrou-se no quarto. Viu 
Talbot sentado na cama, pois havia duas velas acesas no castial no criado-mudo.
        ? Voc veio! ? disse l com sua voz profunda.
        ? Estou aqui... ? respondeu ela, baixinho.
        Seu corao batia descompassado.
        ? Abra as cortinas e descreva-me como est o cu.
        Sacha fez o que ele lhe pediu e disse:
        ? O cu est todo estrelado e a lua ilumina toda a paisagem com seus raios de prata. Oh, Talbot! Est tudo to lindo!
        ? Ento apague as velas. Deixemos s a luz do luar iluminar o quarto.
        Assim que ela se aproximou da cama para apagar as velas, Talbot segurou-a pelos ombros e disse:
        ? Quero saber o que est usando.
        ? Creio que a duquesa ficaria... chocada se soubesse... mas estou usando uma camisola de seda azul, e um neglig, que forma o conjunto.
        Ela sentiu as mos do duque acariciando seu pescoo e depois descendo pelo colo, at encontrar os pequenos botes de prola que fechavam o lindo neglig. 
Ento, comeou a desaboto-los um a um.
        Sacha sentiu as vibraes e o magnetismo que vinham dele, deixando-a ao mesmo tempo trmula e extasiada.
        Lentamente ele tirou o neglig de Sacha e o atirou no soalho, e ela apenas emitiu um dbil som de surpresa, pos ele j a abraava e beijava ardentemente.
        ? Minha adorada, voc  minha esposa, e quero t-la em meus braos, como j a tenho em meu corao!
        Ali abraados, na enorme cama, apenas o tnue raio de luar era testemunha do xtase em que os dois se encontravam.
        Sentindo a rijeza do corpo do duque contra o seu, Sacha conseguiu dizer apenas:
        ? Por favor... ns... no...
        Novamente ele sufocava suas palavras com beijos.
        ? Voc  minha, e me ama como eu te amo! Oh, como eu te quero!
        Sacha entregou-se  magia e ao magnetismo que vinham daquele homem viril e encantador, por quem estava loucamente apaixonada. Ela no era mais um simples 
ser mortal. Naquele momento era um raio de luz suave e difano, e no estava na terra, mas entre os deuses.
        ? S agora compreendo o que  o amor! ? disse o duque. ? Sempre o busquei com ansiedade e obstinao, e s me decepcionei. Mas agora o encontrei, querida! 
Voc deu um sentido novo  minha vida, amada do meu corao!
        ? Tambm te amo muito! Senti que lhe pertencia desde a primeira vez em que o vi.
        Ele comeou a beijar-lhe a testa, os olhos, o nariz, os pescoo, e Sacha sentia-se dominada por sensaes indescritveis.
        ? Eu te amo e te desejo! ? disse ele com voz rouca. ? Minha adorada, no nos importaremos com o que possa acontecer amanh. Temos esta noite s para ns 
dois.
        Mais apaixonadamente, ele continuou a beijar Sacha e a acariciar seu corpo, que vibrava.
        O quarto parecia muito mais iluminado, pois ao raio de luar se juntava um resplendor que irradiava os corpos dos amantes ? a luz o verdadeiro amor!
        E essa chama os incendiou e, em xtase sentiram-se renascer, em outras paragens, no terrenas, onde flutuavam e onde s havia beleza e amor. Sim, aquele 
era o paraso!
        
        Muito mais tarde, Talbot disse, com sua voz profunda e quente:        
        ? Como pode uma pessoa ser to maravilhosa? Querida, quero que saiba que no queria que isso acontecesse assim, esta noite.
        ? Eu te amos... demais! Mas no sabia que amar era... assim.
        ? Como se sente?
        ? Penso que no conseguirei descrever com palavras ? disse Sacha com ternura. ? Havia msica no ar, e senti que ramos transportados em xtase para o paraso.
        Talbot beijou-lhe a testa.
        ? Minha adorada esposa, era assim mesmo que esperava que se sentisse.        
        ? E... voc?
        ? Como voc encontrei a perfeio do amor, que sempre busquei e j pensava no existir. Essa perfeio  uma coisa to grande, que penso nela como parte 
de algo divino.
        Sacha exultava.
        ?  isso! Foi assim que me senti tambm! Se sentimentos to puros nos invadiram, no poderamos estar fazendo nada... errado.
        ? Claro que no h nada errado! Voc  minha adorada esposa, e durante toda a minha vida irei am-la, ador-la e deix-la feliz, como esta noite!
        Com um estremecimento, Sacha lembrou-se d que a vida toda juntos terminaria naquela noite. No iria, porm, pensar naquilo. O momento era glorioso devia 
prolong-lo.
        ? Eu te amo muito, querido! ? sussurrou-lhe ao ouvido.
        ? Adoro ouvi-la dizer isso. Mas j provou seu amor por mim, como jamais outra mulher talvez o fizesse.
        Dizendo isso, ele comeou a beijar cada parte do seu corpo to ternamente como se fosse algo muito infinitamente precioso.
        ? Como pode ser to perfeita, querida? Voc rene tudo o que eu sonhei encontrar em uma mulher, para ento torn-la minha esposa. Aliado  beleza, voc tem 
o carter mais magnnimo que jamais encontrei em outra pessoa.
        Mais uma vez se abraaram e se entregaram um ao outro apaixonadamente, enquanto o luar banhava seus corpos ardentes.
        
        Muito tempo depois Sacha abriu os olhos. Percebeu que dormira um pouco. Sua cabea estava deitada sobre o peito do duque, que ainda estava adormecido. Seu 
sono plcido a fazia saber que ele estava to feliz quanto ela.
         luz do luar, Sacha podia ver-lhe as feies. Parecia impossvel que, depois e haverem alcanado o mais elevado xtase, ainda estivessem na terra.
        Ela queria beij-lo e afastar-se dali, pois j se excedera demais. Achava que todas as emoes que ele vivera nas ltimas horas no podiam prejudic-lo, 
pois a felicidade e o gozo s podem trazer fora, alegria e vontade de viver. Sim! Ela estava mais confiante do que nunca de que iria correr muito melhor do que 
todos esperavam.
        Ento, beijando ternamente o homem por quem estava perdidamente apaixonada, deixou o quarto de mansinho.
        Ao fechar a segunda porta, sentiu que deixava o paraso atrs de si. Pensou ento se no seria mais honesto contar ao duque que no era Deirdre. Sabia que 
ele amava Sacha e no Deirdre. Sabia que a prima jamais o faria feliz. Imediatamente, lembrou-se de que, como cavalheiro, ele no iria romper um compromisso, mesmo 
no sendo oficial. E, o que  pior, talvez viesse a detest-la, sabendo que no passava de uma impostora.
        No h nada que eu possa fazer. S me resta amar Talbot secretamente, da mesma forma que estou unida a ele em segredo. Mas pertencerei a ele durante toda 
a minha vida.
        Chegando a seu quarto, Sacha deitou-se e, afundando a cabea no travesseiro, chorou muito. Sentia que a separao iminente ia ser uma tortura insuportvel, 
e temia no encontrar foras para suportar o que imaginava seria sua crucifixo.
        
        Na manh seguinte Emily acordou, dizendo:
        ? J levaram Sua Alteza para o quarto onde vai ser operado, milady. O sr. Tomkins est em tal estado, que parece que  ele que vai ser todo cortado.
        ? Ele quer muito bem ao duque. Mas... por que to cedo?
        ? No  to cedo. Quando entrei no quarto, horas atrs, estava dormindo, e no quis despert-la.
        ? Emily, eu tinha que tomar desjejum com a duquesa! Deveria ter-me chamado!
        ? Pois foi Sua Alteza mesma que pediu para no chamar a senhorita. Ela achou que no devia ter dormido bem, de tanta preocupao. Mas, como agora j so 
onze horas, achei melhor vir acord-la, milady, para que no ficasse brava comigo.
        De fato, Sacha quase no dormira. Lembrava-se de que ainda estava acordada aos primeiros clares da aurora que se filtravam atravs das cortinas. Devia ter 
dormido logo depois.
        Sua cabea estava pesada, e seus olhos, inchados. Lavou o rosto com gua bem fria, esperando que ningum notasse que estivera chorando. Mas tranqilizou-se, 
pois, se a duquesa observasse seu abatimento naquela manh, iria, naturalmente, pensar que ela estava preocupada com a operao de Talbot.
        Quando terminou de vestir-se, aproximou-se da janela, como a encontrar foras, como a emprestar do sol a vida, o calor, os dons com que por muitos milnios 
ele vinha presenteando, dadivoso, a Terra e todos os seres viventes.
        Ao encontrar a duquesa, Sacha pediu desculpas pelo atraso, mas a bondosa senhira lhe disse, meigamente:
        ? No se desculpe, minha querida. Sei que no deve ter dormido bem. Tenho, porm, uma boa notcia para lhe dar. Tomkins disse-me que Talbot estava muito 
animado pela manh, e foi para o quarto onde ia ser operado contando piadas e rindo descontraidamente. Parecia at que ia a uma festa.
        ? Fico muito feliz com essa tima notcia!
        Ela sabia que Talbot devia estar mesmo muito feliz. S temia que talvez a emoo e a excitao da vspera tivessem sido fortes demais para ele. Isso confirmava 
seu ponto e vista de que felicidade e amor sempre fazem bem, sempre estimulam e fortalecem.
        As horas pareciam no passar naquela sala de visitas. Havia pouco a conversar.
        Depois de algum tempo, o mdico que havia operado o duque entrou na sala.
        ? Boas notcias, sir Lindsay? ? perguntou a duquesa.
        ? timas notcias. Foi uma cirurgia simples, visto as excelentes condies fsicas de seu neto. Depois de uns dias de repouso, ele estar como antes.
        A velha senhora juntou as mos, dizendo:
        ? Graas a Deus! E, claro,  sua habilidade de cirurgio, sir Lindsay!
        Lembrando-se que Deirdre no conhecia o mdico, apresentou-os:
        ? Quero que conhea sir Lindsay Hardwick, um renomado mdico e cirurgio, que  tambm o mdico do prncipe-consorte.
        Ao cumpriment-la, sir Lindsay disse:
        ? Fico muito feliz em conhec-la pessoalmente. J soube como contribuiu grandemente para o bem-estar de Sua Alteza, antes de minha chegada. Assim, fico feliz 
em ter to boas notcias para lhe dar sobre a operao de meu paciente.
        ?  com muito prazer que as recebo ? disse Sacha com os olhos rasos de lgrimas.
        ? Sir Colin tambm tem notcias, mas ele mesmo vir daqui a pouco traz-las ? acrescentou sir Lindsay.
        ? Os olhos de meu neto esto bem?
        ? Sir Colin acha que sim. Ele no fez um exame completo, porm, enquanto Sua Alteza estava inconsciente, examinou os olhos dele e acredita que est tudo 
bem.
        A duquesa respirou aliviada, dizendo:
        ? Deus certamente ouviu minhas preces.
        ? Agora Sua Alteza vai ser levado para seus aposentos, devendo dormir vinte e quatro horas seguidas. Creio que dentro de pouco tempo estar em perfeita forma.
        ? Todas essa boas notcias deram-me novo alento! ? disse a duquesa. ? E agora, esperemos o almoo, que logo ser servido. E, se estiverem dispostos, podero 
chegar at o rio para pescar uns salmes.
        Sir Lindsay sorriu.
        ?  um convite irrecusvel. Como sabia que, certamente, ia faz-lo, sir Colin e eu prudentemente reservamos nossas passagens de volta para depois de amanh.
        ? Se quisessem ir antes, eu ficaria muito aborrecida!
        Sir Lindsay e a duquesa continuaram conversando animadamente, e Sacha chegou at a janela, procurando conter as lgrimas, num sentimento que era um misto 
de exultao e infortnio. Exultao em saber que seu amado estava bem. Infortnio porque sabia que no poderia falar com Talbot, nem ao menos para lhe dizer adeus.
        A simples idia de no mais voltar a v-lo, atravessava-lhe o peito como uma espaa.
        Este  o fim! A Cinderela volta para seus farrapos e para as cinzas de onde veio, tendo como consolo apenas as lembranas dos doces momentos que viveu com 
o belo prncipe que havia capturado seu corao, pensava Sacha.
        As lgrimas corriam-lhe pela face, sem que ela pudesse evit-lo.
        Sir Colin juntara-se  duquesa e a sir Lindsay. Enxugando as lgrimas discretamente, Sacha aproximou-se dos trs, ao mesmo tempo em que era anunciado o almoo.
        Depois do almoo, a moa foi para seus aposentos. Ao entrar no quarto, Emily j estava atarefada fazendo as malas, o que a deixou mais arrasada ainda.
        Se ao menos pudesse ver Talbot, talvez tivesse mais foras. Sabia, porm, que Tomkins passaria a noite toda ao lado dele, como uma galinha choca que no 
deixa seus pintinhos.
        Sacha precisava desabafar com algum, e disse a Emily:
        ? Vamos partir amanh, e nem vou poder despedir-me de Sua Alteza.
        Emily, que estava pondo vestidos e mais vestidos no grande ba de couro, voltou-se para ela e, vendo a tristeza estampada em seu rosto, disse:
        ? No sou boba, milady, nem surda. Se me permite dizer, acho que o lugar do duque  aqui na Esccia. E l na Casa Grande, achamos que lady Deirdre deve ser 
casar com lorde Gerard. Mas um duque  um duque... e um lorde...  um lorde.
        Emily parou subitamente, como se achasse que estivera falando alm da conta.
        Sacha apenas lhe pediu:
        ? Voc ter muito cuidado em no comentar que estive aqui, no? Pense em como lady Deirdre ficaria furiosa!
        ? E a srta. Hanna! Deus me livre de desobedecer  srta. Hanna! Jamais me arriscaria!
        ? Voc foi atenciosa comigo, e sua ajuda foi inestimvel! Tenho certeza de que ambas vo ficar muito contentes com voc!
        ? Tenho minhas dvidas! Mas, se eu puder, gostaria de voltar a v-la. Talvez possa ir at sua casa.
        ? Mas  claro, Emily! Sabe que ser sempre bem-vinda. Poder levar seu namorado para eu conhecer. Assim, terei a oportunidade de dizer-lhe que  um homem 
feliz por encontrar uma pessoa bondosa como voc.
        Os olhos de Emily brilharam.
        ?  muito bondade sua! Todo mundo diz que a senhorita  bondosa como lady Margaret.
        Sacha ficou contente, pois no poderia receber maior elogio.
        A tarde transcorreu sem novidades, e ela sentia as horas passarem, ligeiras, para aumentar sua aflio. Quando a noite chegou, no conseguiu dormir. A lua 
e as estrelas, que na noite anterior haviam testemunhado sua total entrega a Talbot e haviam enfeitado de luz e encantamento aquela noite inesquecvel, agora testemunhavam 
seu sofrimento.
        Chorando baixinho, ela revivia os momentos de xtase que vivera com Talbot, e pensava que, a poucos metros dali, ele talvez estivesse sonhando com ela.


CAPTULO VII

        No trem que a levava para o sul, Sacha sentia-se como se fosse Persfone, deixando o sol da primavera, sendo arrebatada por Hades e levada para a escurido 
do mundo subterrneo.
        Enquanto seu corpo todo a fazia lembrar-se de Talbot, seu crebro lhe assegurava que tudo chegara ao fim e que viveria s da lembrana daquele amor impossvel.
        Tentava consolar-se, pensando que, quando Talbot a fizera sua mulher, a emoo que sentira fora to sublime, que valia por uma vida, e talvez bem poucas 
pessoas tivessem tido tal emoo. Queria guardar com muito carinho a lembrana daquela noite em que, banhados pelo luar e inundados pela luz do amor, haviam se tornado 
marido e mulher.
        Dentro de poucos dias o duque viria para o sul encontrar-se com Deirdre, e ela voltaria  sua vida humilde, cuidando dos afazeres da parquia e ajudando 
o pai.
        Sentiu uma grande vontade de chorar, mas controlou-se o mais que pde, no s por causa de Emily, mas tambm por estar num trem.
        Antes de deixar o castelo, Sacha escreveu uma carta para a duquesa, pois haviam saio muito cedo, antes do horrio habitual de ela levantar-se.
        Na carta, havia uma parte que dizia:

        Jamais me esquecerei sua bondade e ateno. Conservarei para sempre, em minha memria, a beleza do pantanal, com sua profuso de cores e luzes, o encanto 
e sue jardim e o lago banhado pelo luar.

        Essas imagens jamais se apagariam se sua memria, aliados  figura magnetizante de Talbot.
        Sacha havia pensado em deixar uma carta para o duque tambm. Porm, seria arriscado, porque ele poderia comparar sua letra  de Deirdre. Ento, escreveu 
apenas, em letra de forma:

EU TE AMO DE TODO O CORAO!

        Pois ento o papel onde escrevera essa pequena mensagem num envelope endereado ao duque e deixou-o sobre a escrivaninha. 
        O trem em que viajavam era um expresso, e logo estavam atravessando a fronteira da Inglaterra. Deixavam para trs o pantanal, as montanhas cobertas de pinheiros, 
os vales, os rios cristalinos e encachoeirados, os lagos imensos.
        O trem chegou atrasado a Londres.
        O sr. Evans, com muita presteza, encarregou-se da bagagem, e, sem perda de tempo, foram para a estao de Paddington pegar outro trem, que as levaria para 
casa. Encontrariam Deirdre no caminho.
        Sacha estava muito calma, pois agora, que perdera Talbot, perder o trem no tinha a menor importncia. Emily, no entanto, estava agitada.
        S ao ver Deirdre na pequena estao  que Sacha sentiu um pouco de medo de contar-lhe o que se passara.
        Talvez ela no gostasse de alguma coisa, ou achasse que a prima havia cometido algum engano.
        Deirdre estava linda. Seu chapu era enfeitado de rosas, e ela carregava um buqu de rosas nas mos. Lorde Gerard a acompanhava.
        Quando Deidre e o lorde se despediram, Sacha notou, pela expressam de ambos, que estavam apaixonados um pelo outro.
        Ah, como ela exultaria se Deirdre desmanchasse o noivado com Talbot, j que no o amava!
        Quando o trem comeou a se movimentar novamente, Deirdre disse, zangada:
        ? Voc est atrasada!
        ? O expresso chegou atrasado, e por um triz no perdemos este trem, que tambm atrasou um pouco.
        ? Bem, esto aqui.  isso que importa. Esta parte do plano deu certo... E... o que tem para contar-me? Correu tudo bem?
        Dizendo isso, Deirdre ps as rosas na poltrona ao seu lado e sentou-se.
        ? Tudo certo ? disse Sacha.
        ? Ningum suspeitou que voc no era eu?
        Sacha estranhou que ela no perguntasse antes pela sade do noivo, mas respondeu:
        ? No tiveram a mais leve desconfiana. O duque foi operado ontem, e hoje iam tirar as bandagens se seus olhos.
        ? Ento foi bom mesmo voc ter vindo, ou ento ele a veria. Ah, Sacha, voc nem imagina como nos divertimos! Havia tantas atividades interessantes, e tantas 
festas, que eu me deitava tarde todas as noites. Devo estar abatida e com olheiras.
        ? Voc est linda, Deirdre! ? disse Sacha com sinceridade.
        ? Harry tambm me disse isso. Mas quando chegar em casa, vou descansar. No h coisa que mais prejudique a beleza do que dormir pouco.        
        Deirdre tirou um pequenino espelho da bolsa e mirou-se nele. Depois continuou:
        ? Foi tudo maravilhoso! Nunca passei dias mais alegres e mais excitantes em minha vida. Nunca fui to admirada! Harry est doido por mim!
        ? Tem razo de estar! Que homem no ficaria?
        Realmente, Sacha estava achando a prima lindssima, e tinha certeza de que, se Talbot as visse lado a lado, saberia quem era Deirdre sem hesitar. E era Deirdre 
que ele amava. Era com ela que se casaria...
        Ento imaginou o duque abraando Deirdre e dizendo-lhe as mesmas doces palavras que lhe havia dito naquela noite de sonhos. Sentiu como se uma espada a transpassasse. 
Suspirou e ps a mo no peito.
        Deirdre olhou para prima e disse, com indiferena:
        ? Vestida assim, devo dizer-lhe que tambm est muito mais bonita que de costume.
        ? Foi bondade sua dar-me roupas to lindas. Estou muito grata.
        ? Tinha que lhe dar essas roupas. Como poderia fingir que era eu, usando aqueles farrapos que costuma usar? A propsito, como  a duquesa?
        ? Encantadora! Ela disse que Talbot  seu neto preferido, e que vai deixar-lhe o castelo, quando morrer.
        ? Pelo visto, Talbot logo herdar esse castelo, pois sei que a duquesa  bem velha. Mas se h um lugar onde no quero morar  na Esccia.
         ? Deirdre... Receio ter que dizer-lhe isso... Mas no pude deixar de dizer ao duque e  duquesa que... adorava a Esccia... que achava aquele pas... maravilhoso! 
E  mesmo, Deirdre,  lindo!
        ? Pois disse uma grande tolice! Voc sabe muito bem que detesto a vida no campos, seja na Esccia ou na Inglaterra... ou em qualquer outra parte, Sacha!
        ? Precisamos ter uma conversa bem detalhada sobre minha viagem ? disse sacha, ignorando a raiva sbita da prima.
        ? H muita coisa muito sria que preciso lhe dizer antes de voltar a ver o duque. Infelizmente, no posso conversar sobre isso aqui, nem agora.
        ? J vi que fez uma poro e bobagens que s vo complicar minha vida ? disse Deirdre rispidamente ? Mas acho que no h pressa, uma vez que Talbot s poder 
vir para o sul daqui a uns dez dias.
        Sacha insistiu:
        ?  muito importante! Preciso lhe dizer o quanto antes.
        ? Est bem, no se preocupe. Posso ir  sua casa, ou mandar busc-la. Vou resolver, e mando um criado avis-la.
        Sacha queria falar sobre o casamento secreto, mas Deirdre no parecia nada interessada, e j comeara a falar sobre seu enxoval.
        ? Quando chegar em casa, mame dever ter feito um horrio para mim. Estarei atarefadssima nestas duas semanas. Devo ir a Londres depois e amanh, fazer 
umas compras para o enxoval. Vamos tambm providenciar o vetsido de noiva, que vai ser o mais maravilhoso que possa existir.
        Sacha estava ficando nervosa com  a falta e interesse a prima pelas coisas mais srias. Quando chegaram  estao onde iriam descer, deu graas a Deus, pois 
comeava a ter dor de cabea.
        Duas carruagens esperavam por elas. A primeira pessoa que desceu do trem foi Hanna, que j comeou a dar ordens sobre a bagagem, deixando Emily atarantada.
        Finalmente, tudo foi levado para uma das carruagens. Sacha e Deirdre se acomodaram no da frente.
        Ao se despedir de Emily, Sacha disse:
        ? Muito obrigada por tudo, Emily, voc cuidou muito bem de mim. Hanna pode sentir-se orgulhosa de sua discpula.
        Depois ela se dirigiu a Hanna, dizendo:
        ? Emily foi maravilhosa, Hanna. No sei como teria me arranjado sem ela.
        ? Fico contente em saber disso, srta. Waverley.
        Sacha achou que Hanna no se impressionara com o que ela havia dito sobre Emily.
        Quando a carruagem comeou a andar, Deirdre disse:
        ? Voc no vai comentar nada com seu pai, no, Sacha?
        ? Fiz-lhe uma promessa, Deirdre!  claro que no vou quebr-la.
        ? Tenho uma coisa para dizer-lhe, Sacha.
        ? Pode dizer, Deirdre.
        ? Harry acha que seria... arriscado voc ir  minha festa de noivado e  do casamento. No  por causa do duque, que no viu o seu rosto, mas por causa da 
duquesa, que poder reconhec-la. Acredito tambm que o duque trar seu camareiro.
        ? Sim, claro. ? Sacha pensou nos olhos observadores de Tomkins, que facilmente notaria a diferena entre ela e Deirdre.
        ? E, como Harry sugeriu, voc receber o convite e prometer vir, s que na ltima hora inventar uma doena qualquer.
        ? Voc no acha que o pessoal da vila estranhar isso?
        ? O que o pessoal da vila possa pensar no importa. Quem vai se preocupar com esse povo?
        Sacha no respondeu.        
        Deirdre se despediu da prima, dizendo:
        ? Muito obrigada por ter-me ajudado.
        ? Prometa que no vai se esquecer de que precisamos nos encontrar para conversarmos sobre outras coisas... a respeito do duque.
        Naquele momento Sacha pensou que teria que dar o anel de Talbot a Deirdre. Perderia, assim, o nico sinal de sua unio com ele.
        ? No me esquecerei. Mas h muito tempo ? respondeu a prima.
        Os criados de libr abriram a porta e ajudaram Sacha a descer.
        A porta e sua casa e abriu e Nanny veio correndo ao seu encontro, enquanto a carruagem seguia em frente.
        Enquanto ela e Nanny se abraavam, a outra carruagem que trazia a bagagem chegou.
        Hanna cumprimentou Nanny com frieza, e os dois criados deixaram o pesado ba e as diversas caixas de chapus no hall.
        Nanny foi fechar a porta e voltou, perguntando, eufrica:
        ? Oh, que saudae, srta. Sacha! Fez boa viagem?
        ? Esteve tudo timo, Nanny. Tambm senti muito sua falta e a de papai.
        As duas subiram, e quando Sacha estava tirando o chapu e a capa de viagem, lembrou-se de que ainda tinha cinco soberanos de ouro, que haviam sobrado do 
dinheiro que Deirdre lhe dera. Separou-os, para no esquecer de devolv-los  prima.
        O que tinha para dizer a Deirdre era muito importante, e ela estava preocupada com o desinteresse da prima.
        Estava pensando em escrever-lhe um bilhete, insistindo em que Deirdre a procurasse logo que voltasse de Londres. Ento ouviu seu pai chamando-a. Desceu as 
escadas correndo e atirou-se em seus braos.

        Sacha saiu da igreja pela porta lateral e cumprimentou alegremente vrias pessoas idosas que tambm haviam assistido  cerimnia religiosa.
        Era domingo, e ela gostava de ir  igreja bem cedo, por haver menos gente, e por ser uma cerimnia mais simples, sem o coro. Sentia-se mais recolhida, e 
gostava de ver o alto-mor iluminado pelo sol da manh. Parecia transportada ao cu, e uma grande paz a invadia. O altar, que ela mesma havia arrumado e enfeitado 
com lrios brancos, estava lindo, banhado pela luz do sol. Dos lrios vinha um suave perfume. A pequena igreja era o smbolo da pureza e do amor. Ela lembrara-se 
muito do duque e rezara com fervor para que fosse muito feliz.
        Sacha atravessou o pequeno cemitrio ao lado da igreja, depois entrou no jardim bem-cuidado de sua casa.
        Naquela manh, queria tomar um pouco de sol. Desamarrou as fitas do chapu e tirou-o.
        Como era domingo, estava usando um dos vestidos que Deirdre lhe dera.
        Enquanto andava pelo jardim, a ampla crinolina movimentava-se graciosamente. Ela pensava no duque, e imaginava que ainda devia estar na Esccia. Talvez j 
estivesse bem disposto e completamente recuperado.
        Fazia exatamente oito dias que o havia deixado. A festa de noivado se daria na semana seguinte. Ela e o pai j haviam recebido o convite. Sacha pensou em 
ir  festa s para ver Talbot. Ficaria escondida e evitaria encontr-lo. Poderia v-lo sem ser vista.
        Mas o bom senso f-la tirar imediatamente essa idia maluca da cabea. Alm se ser arriscado, ela no estaria sendo honesta com a prima.
        Sempre que a saudade de Talbot apertava, ela pegava o anel que lhe dera, beijava-o e chorava muito.
        Para aumentar suas preocupaes, Deirdre no havia voltado de Londres, e ela ainda no pudera contar a prima sobre o casamento secreto. Talvez ela chegasse 
no dia seguinte, e Sacha com certeza seria chamada  Casa Grande.
        Ouviu Nanny entrar na cozinha e perguntou-lhe se precisava de alguma ajuda.
        ? No h muito o que fazer, senhorita ? respondeu Nanny. ? Vou fazer apenas ch, um ovo para o reverendo e torradas.
        ? Est timo, Nanny ? disse Sacha.
        Comparava a magra refeio que costumava fazer com o magnfico desjejum do castelo. Naturalmente, pensava que jamais voltaria a fazer refeies como aquelas.        
        Foi para a sala de estar e pousou o chapu numa cadeira, ao passar pelo hall. Depois abriu as cortinas para deixar o sol entrar, ajeitou as almofadas sobre 
as poltronas. Sobre a pequena mesa estava o ltimo manuscrito de seu pai. Ele estivera lendo-o na noite anterior, e deixara-o sobre a mesinha. Sacha juntou as folhas 
cuidadosamente e colocou-as numa pasta. Gostaria de poder ler para o duque o que o pai havia escrito.
        Ela j conhecia aquele novo trabalho, e achava que, alm de bem-escrito, era potico e muito comovente. Tinha certeza de que Talbot iria apreci-lo.        
        Lembrando-se de que a duquesa elogiara os livros de seu pai, Sacha pensou que talvez esse novo livro vendesse bem. Alm de a venda dos livros ajud-los a 
se manter, Sacha gostaria que mais pessoas apreciassem toda a beleza e a profundidade que eles continham.
        Acabando de guardar o manuscrito na secretria, ouviu passos. Algum vinha entrando na sala. Sacha virou-se dizendo:
        ? Papai, eu...
        As palavras morreram-lhe nos lbios.
        Quem estava de p, ali  sua frente, no era seu pai mas um homem alto, maravilhoso, elegantemente vestido, que ela julgou ser uma apario. Era o duque 
de Silchester!
        Ento seus olhos escuros encontraram os dela, e Sacha sentiu que tudo girava ao seu redor. Olhou para o duque e viu que ele a mirava fixamente.
        Por um momento sacha ficou imvel, como se fosse feita de pedra.
        O duque fechou a porta atrs de si e Sacha conseguiu dizer, numa voz que nem parecia ser a sua:
        ? Deve haver um engano... Aqui  a casa do pastor... Deve estar procurando... a Manso Langstone.
        ? Sei que esta casa  a casa do reverendo Waverley.
        A voz do duque era profunda, e ele continuou a olh-la fixamente. Sacha pensou que ele ainda no a havia reconhecido.
        O corao dela estava aos altos, sua boca, seca. Sem olhar para o duque, disse, gaguejando:
        ? Acho que est procurando... lady Deirdre Lang.
        ? Estou procurando a srta. Sacha Waverley, pois tenho algo para entregar.
        ? Para... entregar-lhe?
        ? Estou com algo que lhe pertence e do qual deve sentir muita falta.
        Sem as bandagens, o duque parecia um pouco intimidante e autoritrio. Mas Sacha achou seus olhos lindos. Seu porte era to altivo, ele era to elegante, 
to maravilhoso, que parecia dominar toda a sala.
        O duque no tirava os olhos de Sacha, e ela, apesar de tmida e encabulada, ficou mais confiante, achando que Talbot no sabia nada sobre ela.
        Outro pensamento lhe passou como um raio pela cabea: talvez Deirdre lhe tivesse contado tudo, e ele estivesse ali para dizer-lhe que sabia do plano da noiva. 
Sacha ficaria humilhada e morrendo de vergonha.
        ? O que tenho para lhe devolver, srta. Waverley,  seu livro  luz da Grcia. ? A voz do duque era muito formal. ? Trata-se de um livro escrito por seu pai; 
tem seu nome e uma dedicatria.
        Quase desfalecendo, Sacha lembrou-se de que deveria ter esquecido o livro no quarto do duque. At aquele momento no dera pela sua falta, pois no queria 
relembrar os doces momentos em que lera para ele, nem os comentrios que haviam feito.
        Rememorou a dedicatria do pai:
        
         Sacha, minha carssima e amada filha, cujo auxlio foi inestimvel quando escrevi este livro, pois busca, como eu, espargir um pouco da luz que a Grcia 
deu ao mundo.

        ? Agora ? disse o duque, num tom de voz bem diferente ?, gostaria de saber como um livro pertencente  senhorita foi parar em meu quarto.
        Devagar, Sacha estendeu a mo e pegou o livro, enquanto pensava numa explicao plausvel.
        J ia dizer que havia emprestado o livro a Deirdre, quando o duque lhe perguntou, olhando para ela com infinita ternura:
        ? Sentiu muitas saudades minhas?
        ? Sim... muitas!
        ? Como pde ser to cruel em sair sem nem me dizer adeus e sem me contar a verdade sobre aquela ridcula farsa?
        Ele parecia muito zangado, e Sacha deu-lhe razo. Trmula, consegui dizer apenas:
        ? Como conseguiu... saber?... Deirdre contou-lhe?
        ? Penso que quem deve fazer perguntas sou eu!
        ? Est... muito zangado?
        ? Muito! Muito zangado!
        ? Sinto muito!
        ? Dizer isso no basta! No basta mesmo!
        ? Que mais... posso fazer?
        ? h muita coisa que tem que me explicar! No somente mentiu para mim, enganou-me, como tambm quase me tornou um bgamo!
        Sacha segurou o livro com fora e o apertou contra o peito, como se pudesse esconder ou acalmar o tumulto que havia em seu interior.
        ? Eu no quis fazer isso... Sinceramente, s pensava em sua sade... Tinha medo de que, se no concordasse, a operao no fosse... bem sucedida.
        ? Foi isso que pensei. Mas devia ter coragem suficiente para dizer-me toda a verdade, depois que viu que a operao fora bem sucedida e eu no corria mais 
perigo.
        ? Ah, como tive vontade de... fazer isso! Mas eu havia dado minha palavra a Deirdre... Vocs vo se casar...
        ? Ento pensa realmente que eu seria capaz de fazer uma coisa dessas? Como poderia casar-me novamente, se j estou casado pela lei escocesa? Alm de tudo 
isso, o fato muitssimo mais importante  que a mulher que eu amo e voc, Sacha!
        O modo como ele falou fez todo o corpo de Sacha estremcer.
        Seu corao parecia querer saltar fora do peito, e uma sensao maravilhosa a invadiu. Ela murmurou:
        ? Voc... me ama?  verdade? Voc me ama?
        ? Amo! ? exclamou o duque com firmeza. ? E, como sei que tambm me ama, vim at aqui para perguntar o que pretende fazer a respeito de nosso casamento.        
        ? O que poderia fazer?
        Pela primeira vez o duque deu um sorriso.
        ? Deve obedecer-me... Voc  minha mulher!
        Assim que acabou de falar, puxou-a para si e beijou-a apaixonadamente. Foi um beijo demorado, e ficaram tanto tempo embevecidos que se esqueceram de tudo. 
Seus coraes batiam em unssono. A nica coisa que importava era que estavam juntos, e juntos se sentiam levados para outra dimenso, toda feita e sonhos e beleza.
        Sacha estava to feliz, que sentia as lgrimas rolando pela face.
        ? Como pde fugir de mim, abandonar-me, como o fez? ? disse o duque. ? Voc  minha esposa! Como pde ter esquecido que naquela noite em que fizemos amor 
nosso casamento se consumou realmente? Voc  minha para sempre!
        A ternura com que a olhava enquanto lhe dizia tudo aquilo fez Sacha sentir-se flutuando, levada para o paraso, nas asas prateadas do amor.
        ? Eu te amo! Eu te amo, Sacha, minha adorada! ? repetiu o duque.
        ? Mas voc  noivo de Deirdre!
        Ele ergueu o rosto de Sacha, molhado e lgrimas, dizendo:
        ? Ento pensa que, porque eu estava cego, no podia notar a diferena entre vocs duas?
        ? Como soube que... no era Deirdre... quem estava a seu lado?
        ? Admito que no princpio fiquei confuso. Mas notei, primeiro, que sua voz no era nada parecida com a de Deirdre. Era muito mais suave, e eu percebia que 
voc estava realmente se preocupando comigo. Acho tambm que foi o instinto que me disse que as vibraes de sua personalidade eram muito diferentes. Alguma coisa 
extraordinria acontecia comigo, e eu no sabia exatamente o que era.
        ? Pensei que... o estivesse enganando... to bem...
        ? Como atriz, sua atuao foi lamentvel. Entretanto, quando leu para mim e conversamos sobre a Grcia, voc me cativou de um modo como mulher alguma jamais 
conseguiu fazer.
        ? Fico muito contente em ouvir isso. Mas... foi um erro meu fazer tal coisa.
        ? Acredito que foi o destino, minha querida. As palavras de seu pai, to tocantes, to cheias de beleza e verdade, tiveram o poder de fazer com que nos apaixonssemos 
um pelo outro. Confesso que, ao perceber que a amava mais que a tudo neste mundo, fiquei aterrorizado, com medo de perd-la.
        ? Foi por isso que... se casou comigo?
        ? Exatamente. No pense que fui tolo a ponto de no perceber que algum viera no lugar de Deirdre, para ficar ao meu lado durante minha convalescena. Conhecendo 
Deirdre, sabia que ela no iria querer perder tempo ao lado de um homem cego, que no podia estar sempre elogiando sua beleza... Tive medo de que fugisse de mim 
antes que eu pudesse descobrir quem era, e temia nunca voltar a v-la.
        ? Foi esse mesmo... o plano.
        ? Nunca pensei que, havendo aceitado casar-se comigo, ousasse continuar sua farsa e, como disse antes, fazer-me correr o risco de ser acusado de bigamia.
        ? Pensei que... se voc no soubesse que eu era outra pessoa, isso no ... importasse.
        ? Mas voc sabia! Jamais poderia deixar-me casar com Deirdre!
        ? Eu no tenho nenhuma importncia...
        O duque olhou para ela com um sorriso terno:
        ? Para mim,  a pessoa mais importante do mundo! E tambm  a duquesa de Silchester.
        ? Oh, eu te amo demais! Mas... o que poderia fazer? Voc ia se casar com Deirdre! No queria for-lo a... faltar com sua palavra.
        O duque no respondeu. Abraou-a e beijou-a. Sacha no pensava em mais nada. S sabia que pertencia a ele.
        Depois de uns instantes, ele disse:
        ? O tempo est passando e temos muita coisa a fazer, minha adorada. Sei que seu maior prazer seria que seu pai celebrasse nosso casamento religioso. Ele 
nos espera para fazer isso, antes de partirmos.
        ? Meu pai?!
        ? J lhe expliquei tudo, e ele compreendeu.
        ? Voc... contou-lhe que eu... me fiz passar por... Deirdre?
        O duque meneou a cabea.
        ? No. Isso iria aborrec-lo. Disse-lhe apenas que nos conhecemos na Esccia e que me apaixonei por voc. Expliquei tambm que estava livre.
        Sacha respirou, aliviada. Depois perguntou:
        ? Livre? Mas... e Deirdre?
        Talbot sorriu.
        ? Sua prima recusou-se a casar comigo e rompeu nosso noivado.
        ? Rompeu... o noivado? Por qu?
        ?Assim que voc partiu, percebi o que havia acontecido. Ditei imediatamente uma carta para a secretria de vov e mandei-a ao pai de Deirdre, explicando 
que, de acordo com os mdicos, havia alguma chance de eu ficar cego. Assim, ela estaria desobrigada de manter sua promessa de noivado, se quisesse.
        ? E... Deirdre...
        ? Imediatamente rompeu o noivado. No suportaria a idia de se casar com um homem que no a pudesse ver e admirar.
        ? Mas isso era uma mentira!
        ? Uma pequena mentira... Sabia que ela no estava apaixonada por mim. Alm disso, salvei seu orgulho. Ela no se sentir preterida. Dei-lhe a oportunidade 
de recusar-me. Seria difcil para ela aceitar que eu me casasse com algum no s mais bonita que ela, mas tambm muito mais agradvel e bondosa. Sacha, minha querida, 
perfeita como voc, s a deusa Afrodite!
        ? Isso tambm ... mentira...
        ?  a pura verdade! Sua prima  linda, mas s tem a beleza fsica. Em voc, querida, a beleza vem da alma, do corao. Voc irradia beleza to pura como 
jamais vi em outra mulher.
        Talbot dizia aquelas palavras com tanta sinceridade que Sacha ficou emocionada. Apoiou a cabea no peito dele.
        ? Tenho muito mais coisas para lhe dizer. Mas seu pai est esperando. E... quero pedir-lhe uma coisa.
        ? Que ?
        ? Quero que vista aquele vestido branco bordado de fios de prata e prolas. Voc o usava na primeira noite em que a beijei.  assim que quero v-la como 
minha noiva.
        ? Sim...
        ? Ento vamos, querida. Tomkins est esperando l fora. Vou pedir a ele que entre e pegue sua bagagem, que sua criada j deve estar arrumando.
        Antes de ir para o quarto, Sacha puxou uma fita que tinha ao redor do pescoo, desamarrou-a e tirou o anel de sinete que trazia sempre junto ao seio. Ento, 
entregou o anel, ainda quente pelo contato com seu corpo, ao duque. Em seguida, subiu as escadas correndo, corada pela excitao.
        Foi fcil para Nanny arrumar as roupas da moa, pois o ba e as caixas que havia trazido da Esccia estavam quase que intatos. Sacha no sentira vontade 
de mexer nos vestidos, nem de tir-los do ba. Logo Nanny subiu para ajud-la a vestir-se.
        ? No estou entendendo bem o que est acontecendo, senhorita, s sei que Sua Alteza  o homem mais belo que j vi em toda a minha vida.  tambm um cavalheiro 
muito gentil.
        ? Eu o amo, Nanny!
        ? Sua me iria gostar muito dele. Do cu, onde certamente est, ela os abenoa, srta. Sacha ? disse Nanny, enquanto duas lgrimas lhe rolavam pela face.
        Nanny tirou de uma caixa vu e a grinalda de flores de laranjeira que lady Margaret usara em seu casamento, e acabou de ajudar Sacha a arrumar-se.
        Quando estava pronta e ia descendo as escadas, ela pensou, medrosa, que talvez estivesse sonhando e que, quando chegasse  sala, Talbot teria desaparecido, 
como se fosse uma viso.
        Mas ele estava l, olhando-a to ternamente, que seu olhar dizia mais que as palavras.
        O duque ofereceu o brao a Sacha e ps a mo sobre a dela.
        ? Agora podemos caminhar juntos ao encontro da luz que sempre iluminar nossas vidas. Ser seu pai que, em nome de Deus, nos dar essa luz verdadeira, quando 
nos ajoelharmos diante ele.
        Sacha estava muito comovida. Inclinou a cabea e apoiou-a no ombro de Talbot.
        ? Eu te amo tanto! Tanto!
        A igreja parecia estar inundada por uma luz ofuscante.
        Os noivos ajoelharam-se, e o reverendo Waverley celebrou a cerimnia simples, mas tocante. Quando o duque ps a aliana de ouro no dedo de Sacha, os dois 
sentiram-se dominados por uma forte emoo. Foi como se uma luz divina os envolvesse, abenoando-os e unindo-os para todo o sempre.

        Quando voltaram da igreja, tudo o que Sacha teve a fazer foi trocar o vestido branco por um traje de viajem.
        Ao beijar o pai, ela disse, feliz:
        ? Papai, quando se acredita com fervor, at contos de fadas podem tornar-se realidade.
        ? A f faz milagres, minha filha!
        ? No se esquea, querida ? disse Talbot ?, que me fez acreditar em milagres. E pode estar certa de que nossa vida juntos ser mesmo como um conto e fadas.
        Acabando de dizer isso, dirigiu-se ao reverendo, dizendo:
        ? Quando voltarmos de nossa lua-de-mel, gostaria que fosse trabalhar como pastor em uma das minhas propriedades, em Kent. A parquia  muito grande, mas 
ter outros auxiliares. Poder, assim, dedicar-se mais a seus livros.
        ? Oh, papai ? disse Sacha alegremente ?, que timo!
        ? Parece que estou sonhando!
        ? Bem, acho que poderemos partir, no, querida?
        ? Sim, porm, gostaria que dissesse a papai onde vamos passar nossa lua-de-mel.
        ? Esta noite descansaremos numa casa que tenho aqui perto ? respondeu o duque. ? Amanh tomaremos o trem para Southampton. De l embarcaremos em meu iate 
e iremos para Grcia. Sim, a Grcia, que o senhor to bem descreveu em seus livros, reverendo, e de onde veio a luz dos ensinamentos que iluminaram o mundo e que 
Sacha me ensinou a sempre buscar. Quero levar  Grcia a mais linda mulher, que, com sua beleza, ofuscar as deusas que habitam o Olimpo.
        A felicidade iluminou o semblante do rverendo Waverley.
        Todos se despediram, e o jovem casal partiu feliz para sua lua-de-mel.
        Nanny chorava de felicidade.

        Naquela noite, nos braos de Talbot, Sacha disse:
        ? Estar com voc significa alegria e xtase. Sei que no poderia viver sem seu amor.
        ? Nunca lhe passou pela cabea,  minha tolinha, que poderia ter tido um... beb? Como se arranjaria, se tivesse esse filho... longe de mim?
        Um rubor subiu ai rosto de Sacha.
        ? Pode achar-me ignorante, mas... antes de fazermos amor... no sabia muito bem como as pessoas tinham bebs.
        Talbot a beijou com ternura, dizendo:
        ? Quando a beijei pela primeira vez, percebi que era mesmo inocente e bem diferente de sua prima. Quando, naquela noite, a fiz minha esposa, o que senti 
foi algo indescritvel, muito mais excitante e arrebatador do que tudo o que j havia sentido em toda a minha vida. Desde ento soube que era s minha, e que jamais 
poderia amar outra mulher.
        ? Tambm me senti assim. Se voc se casasse com Deirdre, jamais me casaria. Respeitaria nosso casamento secreto e seria sua esposa at morrer!
        Eles estavam to juntinhos que Talbot sentia seu corao e o de Sacha baterem aceleradamente, como se fosse um s. Os dois amantes estremeceram, trocando 
beijos ardentes e apaixonados.
        Os momentos que se seguiram foram de xtase. Os dois corpos unidos experimentaram sensaes inexprimveis, como se fosse arrebatados para o mais alto dos 
cus, onde brilhavam, como os astros.


FIM
        




        
        

        
        
        


        
